Simbologia do Monumento a Júlio de Castilhos

Segundo um jornalista carioca, referindo-se a Júlio de Castilhos, “sua morte produziu um vácuo”. A glorificação através do monumento preenche esse vazio percebido pela sociedade, Se trata de um monumento, algo mais complexo que uma simples estátua. E é um “monumento glorificador”, essa é sua função, pr´xima ao “túmulo do Herói”, que torna sempre presente o morto.

O  Monumento a Júlio de Castilhos, desde sua inauguração, segundo o jornal A Federação, visava as “gerações porvindouras”. Júlio de Castilhos seria um incomprrendido em sua própria época, devido as “anomalias do período”, e por isso o monumento tem uma função de homenagear, mas também de dar um sentido para essa figura histórica. Para isso se utiliza de uma complexa simbologia, dificilmente percebida a primeira vista.

Borges de Medeiros, quando convidou Décio Vilares para criar o monumento, já estabeleceu uma das linhas simbólicas, a representação de Júlio de Castilhos em 3 momentos diferentes, em três fases de sua vida, representadas em ordem cronológica: 1) propaganda, 2) organização e 3) retirada do governo.

1) Fase da propaganda republicana, como jornalista, dos 24 aos 28 anos drigiu o jornal A Federação. Jovem ainda,  Castilhos escreveu nesse jornal contra a monarquia e a escravidão, em em favor da república e da abolição.
Simboliza esta fase a escultura de um jovem que distribui examplares da Federação na rua.

Outra imagem

Atrás do jovem foi colocada a frase A sã politica é filha da moral e da razão, de JOSÉ BONIFÁCIO, o patriarcha da independencia do Brasil.

2) fase de organização do governo. Após a proclamação da República Castilhos, se elege deputado constituinte com 31 anos e escreve praticamente sozinho uma constituição estadual, a Carta Gaúcha, onde organiza as relações entre os 3 poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, de uma forma centralizadora no Executivo, que ele passou a comandar em seguida, apóschegar ao poder como Presidente de Estado, equivalente a Governador. .

Essa é a principal estátua do monumento, todas as demais se organizam em torno dele, com exceção da República. Nela  é representado sentado, com um livro não identificado na mão, provavelmente um dos textos de Comte, o criador do Positivismo. Sua linguagem corporar é de estar preparado para se levantar e agir. Castilho não era um filósofo ou ideólogo, adotou o Positivismo e sua atitude era ser o político que traria para dento do governo concepções mais científicas, menos metafísicas ou religiosas. Por isso defendeu o estado laico, o casamento civil, o ensino livre, separando cada vez mais Estado e Religião.

3) retirada do governo. Em 1898 Castilhos deixa o governo do Estado e é substituído por seu principal seguidor, Borges de Medeiros. Em 1903 morre durante uma operação. Tinha 43 anos apenas, e provavelmente a estátua acima o representa como era em vida. Mas é criada uma terceira estátua, representando-o de forma simbólica, alegórica, como um ancião sábio, um “velho de longas barbas”, identificado com um personagem dos Lusíadas, de Camões que representava o “saber de experiências feito”,

Atrás da estátua o dístico em latim Libertas Quæ Sera Tamen, Liberdade, ainda que tardia,  proposto pelos inconfidentes para marcar a bandeira da república que idealizaram

Quando o monumento foi inaugurado em 1913, alguns procuraram ver uma certa imitação do Pensador, de Rodin, também chaado de o Poeta, mas na verdade o modelo do monumento já estava pronto em finais de 1903, quando Villares apresentou uma maquete a Borges de Medeiros, e o Pensador, apesar de ser fundido em bronze em1902, só foi exposto publicamente em 1904.

velhoMonumentoJulio

Além disso há uma clara diferença entre a postura introspectiva do jovem poea pensador e a atitude dinâmica do ancião, que mostra uma musculatura mais desenvolvida. O texto sobre a inauguração no jornal A Federação, associa a imagem deste velho, por outra parte, ao Patriarca da Independência, José Bonifácio, e aos profetas de Miguel Ângelo, na Capela Sixtina, e de fato existe uma certa semelhança com o profeta Jeremias, especialmente pelas barbas e pela posição da mão. Mas novamente, na estátua de Villares ha um dinamismo corporal muito maior

Castilhos seria o profeta dessa nova etapa da humanidade, a República, que ele vê no futuro e para a qual aponta, mas que ele não chegou a ver constituída, pelo menos de forma estável, devido a todos os conflitos que surgiram nesse período de transição. É a cosntrução desse futuro que Borges de Medeiros imaginava ser a sua tarefa, e de certa forma o velho sábio aonta para esse novo período que se abria com a posse de Borges nesse mesmo dia da inauguração. Vincular seu governo à figura carismática de Castilho era sem dúvida a intenção de Borges

Este conjunto de très estátuas são representações do próprio Castilhos em seu monumento. Em volta dessas três estátuas estão outras quatro que representam valores ou emoções importantes para o Positivismo e que o monumento emula no observador.

A – Civismo: colocada acima de Julio de Castilhos sentado, simboliza o Amor, motor supremo de todas as boas ações. Traz nas mãos a bandeira brasileira republicana. Neste caso, mais especificamente, representa o amor à Pátria.

julio

B – Coragem: estendida, ofegante, impaciente, trazendo os louros da vitória numa mão, e com a outra incita o estadista a agir. O olhar se dirige a distância e tem um dos olhos vendados, expressando que ela não mede dificuldades para alcançar os seus objetivos.

C – Prudência: se mostra temerosa, desesperada, esforçando-se por conter a Coragem,
apontando o perigo, representado pelo Dragão, que simboliza os escolhos que o estadista deve vencer. Na época o dragão não parece representar um perigo específico, mas se sabe que o dragão era o símbolo da Casa Real de Bragança e decorava objetos pessoais de D. Pedro II. Poderia ser também, mais específicamente, a ameaça do retorno da monarquia, para uma República em seus primeiros anos.

prudência

D – Firmeza: a figura inabalável de um guerreiro, um Brutus (líder político de orientação conservadora republicana romana), simbolizando o esforço constante, a perseverança,

firmeza

D – Gaúcho: mas todas essas qualidades necessitam também a força numérica, apoio popular, que seria representada na imagem do gaúcho a cavalo.Sobre o gaúcho um dos lemas preferidos de Castilhos, típico republicano conservador : “Conservar Melhorando” é uma modificação de uma frase de Comte: Progredir é conservar melhorando. Dentro do Positivismo, diferentemente de hoje em dia, ser conservador era expicitamente uma qualidade.

gaucho

E – República: No alto, dominando tudo, a representação feminina da República, frequente desde a Revolução Francesa, cuja data, 1789, está gravada logo abaixo, e um pouco abaixo, a data da proclamação da República no Brasil. A República seria o símbolo dos ideais que resumem a política moderna, de Liberdade, Paz e Fraternidade. Porta nas mãos um archote de luz e um diploma constitucional.

F – Dragão, que simboliza os perigos que o Estadista deve combater

G – Cães, diferentemente das estátuas, que são em bronze, os dois cães são em ferro, como se nota pela diferença de cor, e parecem servir de guardas ao recinto do monumento, ao lado das escadarias, Mesmo as escadarias teriam um significado simbólico, representam, o
supedâneo (base, suporte) de um altar, onde se encontra o monumento a Júlio de Castilhos.

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