PEC-Urbsnova: Prédio de Apartamentos na R. São Carlos (à venda)

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Casa de Apartamentos, Thofehrn

Chamada “Casa de Apartamentos”, construída em 1930-33, projeto do arquiteto checo Robert Wihan, pioneiro do modernismo em Porto Alegre, foi propriedade de Jorge Thofehrn, importante industrial alemão do bairro Floresta na primeira metade do séc. XX.

Veja abaixo os principais dados e informações para agendar uma visita.

Imóvel para uso residencial ou comercial, em terreno com 22 m de frente, por 22 m de comprimento, num total de 484 m², com dois andares e aproximadamente 700 m² de área construida.
O prédio é constituído de 9 apartamentos independentes, com cozinha e banheiro, e uma área na esquina, que atualmente está alugada a uma padaria. Tem um pequeno pátio interno.

Valor do imóvel: R$ 1.800.000,00
Com desconto: R$ 1.764.000,00
Condições para obter o desconto de R$ 36.000,00 no PEC-UrbsNova
Em caso de venda através do PEC-UrbsNova, R$ 3.600,00 serão destinados ao projeto Distrito C, de UrbsNova, que se encontra no entorno do imóvel.

O imóvel está listado no Inventário de Bens Imóveis de Porto Alegre como de Estruturação e, portanto, segundo a LEI COMPLEMENTAR Nº 601, de 23 de outubro de 2008, o proprietário deverá preservar o imóvel.

LOCALIZAÇÃO E ÁREA TOTAL DO IMÓVEL

Endereço:
R. São Carlos, números 770 e 778, e r. Hoffmann, números 401, 405 e 408 (toda a esquina).

Google Map

FOTOS EXTERNAS DA CASA DE APARTAMENTOS

Casa de Apartamentos, de Robert Wihan.

Esquina da São Carlos, a esquerda, com a Hoffmann, a direita Foto: agosto de 2014

Casa de Apartamentos, de Robert Wihan.

Fachada Hoffmann. Foto: agosto de 2014

Casa de Apartamentos, Robert Wihan.

Fachada São Carlos Foto: agosto de 2014

Casa de Apartamentos, Robert Wihan.

Fachada São Carlos. Foto: agosto de 2014

Casa de Apartamentos, Robert Wihan.

Fachada Hoffmann. Foto: agosto de 2014

CONTEXTO

Território mais amplo: localização nos bairros e no Distrito Criativo

O imóvel está numa área do bairro Floresta, próxima ao Centro Histórico e aos bairros Independência e Moinhos de Vento. Está a cerca de 1 km dos shoppings Moinhos de Vento e Total e a cerca de 1,6 km do futuro Cais Mauá.

Além disso, se insere diretamente em um território de 80 ha, que desde 2013 sedia o projeto Distrito Criativo de Porto Alegre, e que reúne 82 artistas e empreendedores de economia criativa, do conhecimento e da experiência, com várias galerias de arte, ateliers de artistas, muitos antiquários e brechós, além de bons restaurantes, bares, cafeterias e padarias.
Alguns participantes do Distrito Criativo: Galeria Bolsa de Arte, Porto Alegre Hostel Boutique, Projeto Vila Flores, Churrascaria Na Brasa/NB Steak, Sul Fotos Laboratório Fotográfico, CC100, Cantina Famiglia Facin, Hotel Íbis Styles, etc  (ver lista completa de participantes do Distrito C).

Casa de apartamentos Wihan -territorio

Entorno próximo (retângulo amarelo no mapa acima)

Casa de apartamentos Thofehrn - entorno proximo

Em primeiro lugar, temos a proximidade de duas avenidas importantes, a av. Farrapos e a av. Cristovão Colombo, ambas a uma quadra de distância, que oferecem um acesso rápido ao Centro Histórico, à Zona Norte e a bairros próximos como Moinhos de Vento e Independência.

Na av. Cristovão Colombo, temos também um Supermercado Zaffari, bem próximo ao imóvel, cerca de uma quadra.

Dois grandes prédios no entorno estão em processo de recuperação, na av. Farrapos, esquina com r. Sete de Abril, a antiga Importadora Americana, com 14 mil m², e na mesma r. Sete de Abril, próximo à Av. Cristovão, o antigo Moinho Germani, com com mais de 4 mil m². Ambos projetos serão nos próximos anos destinados a locação comercial.

Importadora Americana

Importadora Americana (frente, na av. Farrapos)

Importadora Americana, fundo na R. São Carlos, a poucos metros do Vila Flores | Foto: Jorge Piqué

Importadora Americana, fundos na R. São Carlos.

Moinho Germani

Moinho Germani, na r. Sete de Abril

Na R. São Carlos e na R. Hoffmann, na esquina ao lado da Casa de Apartamentos à venda, está o projeto Vila Flores, com mais de 2 mil m² de área, onde foi criado um centro cultural e estão se instalando negócios relacionados à economia criativa. É um projeto de 1928, do arquiteto Josef Lutzenberger, um dos mais importantes da história da cidade.

Visita da Univates ao Distrito C & 4º Distrito | Vila Flores

Vila Flores, projeto de Josef Lutzenberger

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Veja matéria sobre esses empreendimentos do entorno do imóvel na página de economia de Isabel Hammes, em Zero-Hora de setembro de 2013.

Em resumo, o imóvel, que tem ampla área física, e é um espaço com muito potencial para atividades de economia criativa o (escritórios de arquitetura, design, moda, webdesign, publicidades, etc) ou para um hotel médio, escola, entretenimento, etc. Encontra-se praticamente ao lado de três importantes empreendimentos comerciais e culturais que irão acontecer ali nos próximos anos.

 PESQUISA HISTÓRICA E ARQUITETÔNICA

Uma casa antiga não é só a sua localização, os seus metros quadrados, a divisão interna, os materiais de que foi feita, ou seja, os critérios que o mercado imobiliário considera importantes. Mas é também todas as histórias pessoais e coletivas que se desenvolveram nela e no seu entorno, na sua rua, no seu bairro. Esse valor imaterial de uma casa antiga, intangível, é o que queremos valorizar neste imóvel e que ele leve esta casa a encontrar o seu melhor dono.

Histórias antigas da Rua Hoffmann

O prédio tem muitas relações com o entorno urbano da R. Hoffmann, com o bairro Floresta e com a própria história de Porto Alegre, dos anos 20 a 40, especialmente, com duas tradicionais fábricas de perfumaria e bebidas na mesma rua.

O primeiro proprietário

João Jorge ThofehrnSegundo registro no arquivo municipal, o primeiro proprietário do imóvel foi João Jorge Thofehrn (1878-1947), seu nome aparece na planta da casa, registrada na Prefeitura, em 1937. Johann Georg Thofehrn, nasceu em Porto Alegre em 1878, filho de imigrantes alemães.  Em 1887 viajou com os pais para a Alemanha, morando e estudando lá dos 8 aos 16 anos. Em visita escolar a Friedrichsruh, perto de Hamburgo, foi apresentado pessoalmente ao chanceler Otto von Bismarck, já retirado da vida pública, como o único aluno estrangeiro da turma, por ser brasileiro. Terminando a escola, fez o Curso de Comércio da Academia de Comércio em Hamburgo.

Queremos agradecer a Família Thofehrn pelo acesso a material inédito, entre textos originais e fotos antigas, pertencentes ao acervo da família. Em breve, apresentaremos uma página dedicada à vida e obra de João Jorge Thofehrn, como parte da história e memória do Distrito Criativo. Agradecemos também a ajuda dos antigos moradores, Seu Aldo e Seu Dilvo, que ainda mantêm as lembranças daqueles tempos.

Depois de trabalhar como aprendiz em uma firma de Hamburgo, retorna ao Brasil em 1894, trabalhando como contador e caixeiro-viajante pelas colônias alemãs e italianas, durante 14 anos, e conhecendo nessa época de juventude vários alemães que começavam sua atividade comerciais e empresariais, como Pedro e Guilherme Jung, Carlos Trein, Arthur Bopp e Alberto J. R. Jacobi.

Conhece Bertha Ritter Trein (1878-1961), filha de Carlos Felipe Trein (1848-1899), da abastada família de comerciantes de São Sebastião do Caí, com quem se casa em 1900. Tem 3 filhos: Hedvig (1901), Ernest Waldemar (1903),  nascidos em São Sebastião do Caí, e Arno Jorge (1909), nascido em Porto Alegre. Bertha era Ritter por parte de mãe e por isso João Jorge teve relação familiar com os Ritter cervejeiros e depois doceiros. Através da família de Bertha também tinha relações com os cervejeiros Becker e Sessen, maridos de sua tia Elizabeth Ritter.

Familia Thofehrn

O casal Jorge e Bertha Thofehrn, com seus dois filhos, Hedwig (n. 1901) e Ernest (n. 1903). Foto anterior a 1909, quando nasceu o seu terceiro filho, Arno.

Em 3 ocasiões, 1906, 1913, e 1926, Jorge viajou com Bertha à Alemanha, para visitar seus pais, que tinham voltado a morar lá, e onde tinha parentes.

Blankene era uma pequena cidade próxima a Hamburgo, às margens do Rio Elba, para onde voltaram os pais de João Jorge e onde ele foi visitá-los algumas vezes com a família. Foto de Blankenese em 1900.

Blankenese era uma pequena cidade próxima a Hamburgo, em um promontório, às margens do Rio Elba, para onde voltaram os pais de Jorge e onde ele foi visitá-los algumas vezes com a família. Foto de Blankenese em 1900.

Hamburgo, em 1906, quando Jorge Thofehrn volta a Alemanha, depois de adulto.

Hamburgo, em 1906, quando Jorge Thofehrn volta a Alemanha, depois de adulto.

Ao retornar da primeira viagem, abre com seu cunhado Carlos Trein a firma Trein, Thofehrn & Cia, em São Sebastião do Caí. Duas primas de Bertha casaram-se com Frederico Mentz e A.J. Renner, jovens que iniciavam seus empreendimentos. Em 1908 se muda definitivamente para Porto Alegre, morando no Centro e frequentando a Turnerbund (atual Sogipa).

Em 1913, arrendou o Chalé da Praça XV e o dirigiu durante a Primeira Guerra.

Chalé da Praça XV, na década de 10, quando Jorge Thofehrn foi permisionário.

Chalé da Praça XV, na década de 10, quando Jorge Thofehrn foi permissionário.

Durante a Primeira Guerra, vários estabelecimentos alemães sofreram ataques, entre eles a fábrica de perfumes e bebidas do Dr. Vitor Fischel, que se desgostou, vendeu a fábrica e voltou à Europa (para retornar ao Brasil em 1920). Em 1917, Jorge Thofehrn compra a fábrica de Fischel, na R. Hoffmann, nº 67, com todos os segredos de seus variados produtos de perfumaria e bebidas, e cria a empresa J. Jorge Thofehrn & Cia. O conhecido construtor Rudolph Ahrons foi seu sócio comendatário.

Antiga Fábrica Fischel, já comprada por Thofehrn, em 1917.

Antiga Fábrica Fischel, já comprada por Thofehrn, em 1917, hoje derrubada.

A fábrica de Thofehrn, portanto, é a continuação da primeira fábrica de Fischel, na R. Hoffmann. Essa época de Porto Alegre reflete a transformação de um período onde praticamente tudo era importado da Europa, até mesmo pregos, para um período onde ainda se importava a matéria-prima, mas já aparecia uma incipiente indústria local, que se desenvolve em razão da Primeira Guerra Mundial,  quando os produtos importados escasseavam na cidade.

Cartaz Victor Fischel na HoffmannA Fábrica Dr. Victor Fischel. Segundo a publicação Impressões do Brazil no Século Vinte, editada em 1913, Victor Fischel foi um químico alemão, que nasceu em 1866, em Württemberg. Depois de passar pela Bélgica, Nova York e  Argentina, o Dr. Fischel chega em 1887, com 21 anos, a Porto Alegre e neste mesmo ano funda na r. Hoffmann uma fábrica de produtos de perfumaria (sabonetes, extratos, loções tônica, pós-de-arroz, cosméticos, todos vendidos pela marca Perfumaria Flora, e também refrigerantes como a água mineral Fischel, a gasosa Alsina e o famoso “champagne” Monopol, fabricado em Porto Alegre, desde 1899, o primeiro do Rio Grande do Sul, com uvas importadas da França, na própria R. Hoffmann, fabricado pelo sistema francês.

Com osPropaganda Monopol 20 maio 1918 anos, foi considerada a maior fábrica do seu ramo no Estado, tendo ganho vários prêmios, e uma das melhores do país.

Desde, pelo menos, 1908, a fábrica de Fischel se localizava na R. Hoffmann, 67, próxima à Av. Voluntários da Pátria, e se expandiu para outros pontos na mesma rua, distribuindo as diferentes atividades, se aproximando da esquina com a Voluntários, onde se localizava a maioria das fábricas na época. A partir de 1916, ocupou também o n.º 23, e a partir de 1918 o nº 2. As fotos abaixo mostram a fábrica de Fischel, de 1908, na Hoffmann, n.º 67, que depois será comprada por Jorge Thofehrn.

Fabrica Fischel

Foto de antes de 1913, da fábrica na R. Hoffmann, nº 67, construída em 1908. Fonte: Impressões do Brazil no Século Vinte, 1913, p. 819 (Clique para ampliar)

Foi o importante arquiteto checo Josep Hrubý que fez o projeto e construiu a outra fábrica de Victor Fischel, de 1916, na R. Hoffmann, n.º 23. Hrubý também projetou uma das mais importantes igrejas nessa região, a Igreja São Pedro, em 1917. Será também um arquiteto checo que projetará a Casa de Apartamentos, nos anos 30, para Thofehrn.
Mais informações sobre esse arquiteto no post Josef Hrubý: um arquiteto checo em Porto Alegre.

fábica de agua gasosa de victor fischel 1916

Apenas 4 anos após esta foto, a fábrica já pertencia a Jorge Thofehrn.

A fábrica na R. Hoffmann necessitou grandes investimentos e Thofehrn decide se mudar para mais perto, na R. Gaspar Martins. Em 1921, sua filha mais velha, Hedwig se casa com Jacob Prudêncio Herrmann, guarda-livros, que irá trabalhar com Thofehrn na área administrativa da empresa. Herrmann foi um importante fotógrafo, embora amador, da Porto Alegre dos anos 30. Foram trabalhar também na fábrica nos anos seguintes os filhos Ernest e Arno.

De 1925 é o projeto da primeira casa que Jorge Thofehrn construiu na r. Hoffmann, para residir. Em princípios de 1926 se muda para lá. Era uma casa térrea, comprida, com vários quartos, inclusive quarto de empregada. Provavelmente é desta época a nova fábrica, na Hoffmann, perto da São Carlos, pois em 1927 já existe uma planta de reforma.

Logo depois, comprou o terreno ao lado, nº 522, onde construiu outra casa, maior, com dois andares, para onde se mudou em 1928, enquanto sua filha e Jacob Prudêncio Herrmann passaram a viver na primeira. O construtor da segunda casa foi João Kolberg (1907-?), que foi muito ativo nos anos 30 e 40, segundo o professor Gunter Weimer. Colocamos abaixo as duas fachadas das casas de Thofehrn , como deviam estar na R. Hoffmann.

Residencias Thofehrn na r. Hoffmann

Abaixo, uma montagem, colocando lado a lado duas fotografias de Jacob Prudêncio Herrmann, quando provavelmente passou a viver com a esposa, filha de Thofehrn , na casa da esquerda, a partir de 1928. Nesta época a Casa de Apartamentos ainda não existia na R. Hoffmann, mas os Thofehrn  já estavam instalados.

Casas Thofehrn

Em 1928, Lutzenberger projeta para Oscar Bastian Pinto, também na R. Hoffmann, n.º 477 e 459, em frente a essas residências Thofehrn, dois grandes edifícios de 3 andares, com apartamentos para alugar, o atual Vila Flores.

Predio de Lutzenberguer na Floresta

Em 1930 Jorge Thofehrn foi presidente da Sogipa, como solução de conciliação entre posições rivais. Em 1930 e 1931 existem os primeiros registros de uma fábrica de gasosa, sabão, sabonete e perfumaria,  a Jorge Thofehrn & Comp.  Ltda, e de cerveja e gelo com o nome Thofehrn, na mesma R. Hoffmann, mas já no nº 384, mais próxima a R. São Carlos.

Jorge Thofehrn para ampliar suas atividades comprou esse terreno na mesma rua, mas agora se afastando da Av. Voluntários. Lembremos que em 1928 houve uma primeira enchente significativa, quando o Guaíba chegou a ficar 3,20 metros além da cota normal (na grande enchente de 1941, atingiu 4,75 metros),  e  as ameaças de enchentes talvez aconselhassem afastar-se  da orla.

R. Voluntários da Pátria, coberta pela enchente de 1928.

R. Voluntários da Pátria, coberta pela enchente de 1928.

Segundo testemunho do falecido Sr. Aldo Rossato, morador da R. Hoffmann, desde 1930, quando nasceu, o novo terreno da fábrica era em parte na R. Hoffmann, nº 384, e em parte na R. São Carlos, onde hoje esta ainda a antiga boate Madrigal, hoje desativada (este imóvel também está a venda pelo PEC-UrbsNova). Era antes uma chácara de sua avó, Ângela, mulher de Giácomo Bernardi, que vendeu o terreno para Jorge Thofehrn.

A casa da família Rossato foi construída na esquina, onde no térreo existia o antigo Armazém Marconi, do pai de Aldo, Antonio Rossato Sobrinho, prédio onde nasceu “Seu Aldo” e que permanece no local desde 1930. E em volta do armazém foi construída a nova fábrica de Jorge Thofehrn. Em frente a este armazém se encontra ainda a Casa de Apartamentos, também propriedade de Jorge Thofehrn, que seria construída alguns anos depois, hoje, à venda, conforme a a imagem abaixo.

entorno antigo

Foi no terreno da chácara que Thofehrn construiu sua nova fábrica, a partir de 1930, com várias ampliações nos anos seguintes. Houve uma primeira reforma e ampliação em 1933, ocupando a R. São Carlos.

Abaixo, a fábrica em 1937, vista na esquina da R. Hoffmann com a antiga Av. Minas Gerais (antes S. Santos Dumont e antes R. Florida), atual Av. Farrapos, com seu tamanho máximo e com a sua frota de veículos para a distribuição dos produtos. O prédio alto ao fundo era o Frigorífico, na R. São Carlos, para produzir gelo, e ela ainda hoje é lembrada pelos antigos moradores mais como uma fábrica de gelo, por essa estrutura. Mas era desde o início uma fábrica de perfumarias e  bebidas sem álcool.

fabrica Hoffmann peq

A fábrica construída por Thofehrn se situava na R. Hoffman, entre a R. São Carlos e a antiga Av. Minas Gerais, que foi ampliada, para a criação da Av. dos Farrapos. Na foto, temos Minas Gerais à esquerda, Hoffmann, à direita. No extremo direito estaria o antigo Armazém Marconi, que junto com a Casa de Apartamentos, ainda estão de pé nesta quadra da R. Hoffmann. Foto Jacob Prudêncio Herrmann.

A reforma e ampliação dessa fábrica em 1933 foi realizada pela Häessler & Woebcke, a mais antiga construtora gaúcha em operação e a quarta do país, hoje com o nome Construtora Ernesto Woebcke S/A. Fundada em  1923 pelo Eng. Alfred Häessler, pelo arquiteto Carlos Grimm e pelo comerciário Walter Von der Beck, até hoje continua funcionando. Häessler trabalhou antes no escritório de R. Ahrons, onde fazia cálculos de concreto armado para Theo Wiederspahn. Antes de trabalhar para Thofehrn, a empresa já havia construído o Moinho Pelotense (1925), um edifício para a Neugebauer (1929), os Moinhos Rio-Grandenses (1930) e a Cia. Geral de Indústrias (1920 e 1930).

Outros projetos industriais da Häessler & Woebcke: o Pavilhão das Indústrias do Rio Grande do Sul (1935), os silos da Maltaria Continental (1936) e a nova Fábrica Neugebauer (1937). Fonte: Miranda, A. A Evolução do Edifício Industrial em Porto Alegre. 2003.
O belvedere do lago do Parque Farroupilha foi construído na década de 1940, também pela Haessler & Woebcke.

A fábrica de Thofehrn, para a sua linha de perfumaria, usava o nome fantasia de Perfumaria Lido, que vendia e produzia sabão, sabonete, perfumarias em geral, na R. Hoffmann, nº 384, como Fischel havia usado antes a marca Perfumaria Flora, e era conduzido por seu filho Arno.

Nesse período entre 1930 e 1940, com a nova fábrica, houve uma significativa melhoria econômica da família Thofehrn.  Segundo seu neto, Curt, hoje com 88 anos, João Jorge se considerava um “arquiteto honoris causa“, pois tinha um  entusiasmo contagiante quando se propunha a construir e, de fato, construiu muitas casas, tanto na R. Hoffmann, como na Coronel Bordini e uma residência de veraneio no bairro Três Figueiras.

Em 1937 o engenheiro checo João Wihan (ver mais detalhes abaixo) assina na prefeitura o projeto da grande “Casa de Apartamentos” (veremos que na verdade a casa é anterior, ver mais abaixo), na R. Hoffmann, esquina com a R. São Carlos, prédio que está a venda no momento, bem próxima da residência dos Thofehrn, em frente de sua fábrica, e ao lado dos prédios de Bastian Pinto, projetados em 1928, por Josep Lutzenberger (hoje Vila Flores). Provavelmente era também um prédio para aluguel para famílias com menos posses, trabalhadores, como era o prédio de Bastian Pinto, chamado no projeto de “casa de aluguel”.

Outro sinal da ascensão social de Thofehrn é que em 1938 foi aberto um Livro de Ouro no Clube de Regatas Guahyba-Porto Alegre, um clube de origem germânica (o antigo Ruder-Club Porto Alegre) com o objetivo de pagar os gastos com os festejos do cinquentenário do clube. Entre os doadores estava a firma Jorge Thofehrn & Comp. Ltda. e várias figuras e empresas de destaque na Porto Alegre da época, como  o Comendador Ismael Chaves Barcelos e Bopp, Sassen, Ritter & Cia. Ltda, proprietários da famosa fábrica de cerveja, hoje Shopping Total, que por isso recebiam o estatuto de sócio benfeitor. Isso revela bem os relacionamentos sociais de Jorge Thofehrn nessa década.

O Ruder-Club Porto Alegre havia sido fundado em 1888 por Alberto Bins, um dos industriais mais importantes de Porto Alegre e que foi o prefeito no período 1928 — 1937, exatamente a época de ascensão social de Jorge Thofehrn, um dos sócios benfeitores do clube, em 1938 (nessa época eram apenas 14 os benfeitores, dentre os 805 sócios). Eram sócios titulares nessa época grandes empresários como  A.J. Renner e Dr. Rudolph Ahrons.

O ano de 1937 coincidentemente foi o auge das relações comerciais entre Brasil e Alemanha, até a sua ruptura, em 1942, que afetou diretamente Jorge Thofehrn, como veremos a seguir.

A Fábrica Thofehrn que foi construída nos anos 30 foi abalada por três acontecimentos. Em primeiro lugar, por se situar na esquina da R. Hoffmann, com a Av. Minas Gerais, perdeu uma boa parte do terreno e dos prédios, em razão da criação da Av. dos Farrapos. A construção da avenida teve início em 1939, e foi inaugurada em 1940, durante a gestão do prefeito José Loureiro da Silva, que sucedeu Alberto Bins.  Em segundo lugar, em 1941 houve a grande enchente, que inundou toda a fábrica, danificando máquinas e veículos, o que fez João Jorge chorar ao ver a dimensão dos estragos, como conta seu neto Curt, hoje com 88 anos.

A imagem abaixo mostra a mesma foto da fábrica original, em 1937, comparada com a fábrica já mutilada pela criação da Av. Farrapos e inundada pela enchente, em  foto de 1941.

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A Segunda Guerra Mundial vem agravar essa situação. Entre fevereiro e julho de 1942, Alemanha e Itália afundaram 13 navios mercantes brasileiros, mas longe do litoral, com 136 vítimas. Em agosto os submarinos alemães e italianos bombardearam navios de transporte de passageiros, em águas territoriais brasileiras, o que resultou em um número muito maior de vítimas fatais, 607 pessoas perderam a vida.

Uma grande comoção espalhou-se por todo o país. Nos dias 18 e 19 de agosto de 1942, vários incidentes contra estabelecimentos supostamente germânicos repercutiram na sociedade gaúcha. Esse foi o caso dos negócios de Jorge Thofehrn. Conforme Lucas Silva da Silva, “Nos dias seguintes às depredações, alguns dos estabelecimentos comerciais destruídos pelos manifestantes, através de propagandas nos jornais, vieram a público reivindicar o estatuto de firmas brasileiras, sem vínculos com a Alemanha ou Itália, a não ser, na maioria dos casos, o nome.” (Porto Alegre e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): impactos no cotidiano da capital gaúcha, 2009 )

A Casa Guaspari, por exemplo, garantiu ser “firma brasileira, nos termos da legislação em vigor”, e “que as atividades e trabalhos da firma [eram] sempre inspiradas no propósito patriótico de bem servir a coletividade e de contribuir para o progresso e o engrandecimento do patrimônio do estado e da nação”. A firma Jorge Thofehrn & Cia. (em outras fontes sobre o mesmo caso aparece como Fábrica Thofehrn ou Perfumaria Lido) comunicou “ao distinto público da capital e do interior” que era “constituída exclusivamente de sócios brasileiros natos, encontrando-se entre eles 4 reservistas”. O Armazém Marconi, ao lado da Fábrica Thofehrn, também foi alvo de ataques, neste caso, pelo nome italiano.  Em resposta a esses atentados e o clima de revolta, o governo brasileiro, no final do agosto de 1942, declarou guerra à Alemanha e Itália.

Em 1942, Jorge, que morava então na Coronel Bordini decide construir uma casa maior na rua Hoffmann, nº 479, para voltar a morar perto de sua fábrica, já que havia racionamento de gasolina.

fachada casa thofehrn 2 1942 peq

Segunda Residência Thofehrn, na R. Hoffmann, projeto de 1942.

Marion Thofehrn, neta de Jorge e Bertha, lembra com saudades dessa casa grande de sua infância na R. Hoffmann:

quanta saudade , quantas recordações de uma fase tão bonita das nossas famílias que ali se reuniam para confraternizar. Confesso que é com muita emoção que revejo este prédio que não existe mais, porém marcou  profundamente minha vida.
No térreo haviam três apartamentos, sendo que no da frente à direita morou Curt quando casou [outro neto de Jorge]. Os outros dois foram alugados. A parte de cima era toda ocupada pelos meus avós [Jorge e Bertha]. Ao  fundo se pode ver a escada que era o acesso  para o apartamento deles. Em cima, à esquerda do prédio, havia uma enorme área que ia da frente até os fundos onde brincávamos de “pegar” e até de “esconder”. Ali também era festejado o dia de São João, data que meu avô fazia questão de reunir toda a família por ser o santo do seu nome. Comíamos pipocas, pinhões, amendoins açucarados e muita guaraná!!!!  Só não fazíamos fogueira, esta se não me falha a memória, acontecia na pracinha Florida. Depoimento de Marion Thofehrn, neta de Jorge e Bertha, que conheceu a casa na sua infância, nos anos 40, ao ver a fachada acima.

Depois desses reveses, Jorge Thofehrn  teve alguns anos de calma e prosperidade, até  falecer alguns anos depois, em 1947, pouco antes de completar 69 anos. Bertha Trein Thofehrn continuou vivendo nesta casa grande da R. Hoffmann até 1961, quando faleceu aos 83 anos.

Contexto histórico da Casa de Apartamentos, na R. Hoffmann

Contexto histórico da Casa de Apartamentos, na R. Hoffmann. Clique para ampliar.

Cascatinha RJ 1934

Jorge Thofehrn e Bertha, em 1934, na Cascatinha, Rio de Janeiro. Foto: autor desconhecido.

Tanto a fábrica na esquina da R. Hoffmann com a Av. Farrapos, como as duas residências Thofehrn na R. Hoffmann, foram depois vendidas e derrubadas. A fábrica foi vendida em 1961 para Indústrias Villares S.A.  A Casa de Apartamentos que Thofehrn construiu para alugar, na esquina da R. Hoffmann com a R. São Carlos, foi a única construção que, depois de vendida, não foi derrubada e hoje se encontra listada no inventário do bairro Floresta, não podendo ter seu volume ou fachada alterados. É a última marca visível da atuação desse industrial brasileiro de origem germânica no bairro Floresta.

Em breve, vamos apresentar uma página completa com dados mais detalhados sobre as diversas construções na R. Hoffmann, relacionadas a Jorge Thofehrn.

O projeto da Casa de Apartamentos (1937)

Chopp Ao Zeppelin | Bar Zeppelin

Foto da casa de apartamentos, provavelmente nos anos 30.

A foto acima foi tirada por Jacob Prudêncio Herrmann (1896-1967), guarda-livros, nascido em Porto Alegre, fotógrafo amador e que, como vimos  havia se casado com a filha de Jorge Thofehrn.

Assina o projeto, com data de 1937, o Eng. João Wihan

Assinatura João Wihan

Projeto de João Wihan, Eng.º

Na verdade, se tratava do engenheiro checo Johann Wihan, nascido em 1897, mas, segundo o prof. Günter Weimer, em comunicação pessoal, “a onda nacionalista que varreu o país, na década de 1930, fez com que os estrangeiros tivessem de “abrasileirar” seu prenome, em razão do que Johann passou a assinar João”.

Johann iniciou na década de 20 seus estudos de Engenharia Civil na Universidade Alemã de Praga. Outro arquiteto checo, Josef Hrubý, que havia chegado anos antes a Porto Alegre, havia se formado na mesma universidade.  Em 1905, Hrubý, com 30 anos, estava já em Praga, onde recebeu o título de Baumeister, na Universidade Alemã de Praga. Por coincidência, Hrubý, como vimos, havia projetado e construido a fábrica de 1916, na mesma R. Hoffmann, pertencente ao Dr. Victor Fischel, e que logo depois foi adquirida por Jorge Thofehrn, dando início a sua atividade como industrial.

A Universidade Alemã de Praga, a Karl-Ferdinands-Universität, é uma importante instituição universitária checa. Entre 1895 e 1896, Rilke estudou ali literatura, historia da arte e filosofia. Kafka, em 1901, começou seus estudos de química. Einstein, entre 1911 e 1912,  foi professor no Instituto de Física Teórica nesta instituição, o que nos dá uma ideia do nível de formação nesta universidade.

Johann  Wihan não completou seus estudos em Praga. Foi para Munique, onde, em 1924, se formou pela Universidade Técnica de Munique (Technische Universität München -TUM).  Johann Wihan foi um dos contratados da firma alemã Dyckerhoff & Widmann para participar da construção do Viaduto Otávio Rocha, no Centro, cujo contrato com a prefeitura foi assinado em 1928, portanto, já deveria estar na cidade por esta época. Com Johann, veio para trabalhar na mesma empresa, em Porto Alegre, seu irmão, Robert Wihan, que era arquiteto.

Construção do Viaduto Otávio Rocha e abertura da avenida Borges de Medeiros, década de 1920-1930

Construção do Viaduto Otávio Rocha e abertura da avenida Borges de Medeiros, década de 1920-1930.

A firma alemã Dyckerhoff & Widmann, fundada em 1865, foi uma construtora que teve uma enorme importância para o desenvolvimento da tecnologia do concreto na Alemanha, com engenheiros famosos, como Franz Dischinger (1887–1953) y Ulrich Finsterwalder (1897–1988). Dedicou-se especialmente à realização de grandes estruturas, era especialista em  obras hidráulicas,  edifícios, fábricas, silos, pontes, portos, etc. Dischinger,  enquanto trabalha na Dyckerhoff & Whidmann, desenvolveu o conceito de ponte estaiada. A empresa chegou ao continente americano no ano de 1911.

Segundo Günter Weimer, no fim da década de 1920, duas transnacionais da construção entraram em duro jogo para conquistar o mercado sul-americano: as firmas alemãs Gruen-Bilfinger e Dyckerhoff & Widmann. Ambas tinham filiais em Buenos Aires, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Curiosamente, na divisão territorial que essas empresas fizeram, Porto Alegre estava ligada à administração de Buenos Aires. Em Porto Alegre, a primeira venceu a concorrência para a construção de um trecho da estrada de ferro e, a segunda, a realização do Viaduto Otávio Rocha. Foi a Dyckerhoff & Widmann que construiu também as Lojas Bromberg e os prédios de Bastian Pinto, projetados por Lutzenberger, em 1928, nas ruas Hoffmann e São Carlos, ao lado da Casa de Apartamentos, de Wihan.

Através de ambas, vieram vários técnicos para o Rio Grande do Sul. Além dos irmãos Wihan, vieram os também checos Ernst Pursche e Egon Weindoerfer (projetou a poucas quadras da Casa de Apartamentos, em 1942, a Igreja Santa Terezinha). Os alemães  Wilhelm Stein e Gottfried Otto Paul Krueger também foram trazidos pela mesma empresa para trabalhar no viaduto. Fonte: http://www.pucrs.br/edipucrs/digitalizacao/conesul/artes.pdf

Com a crise de 1930, ambas deixaram de exercer suas atividades, e a maioria desses engenheiros e arquitetos que vieram trabalhar no Viaduto acabou por se estabelecer definitivamente em Porto Alegre. Foi isso que aconteceu com João Wihan e seu irmão Robert. Johann trabalhou também na Barcelos & Cia, que atuou em Porto Alegre entre os anos de 1930 a 1945. Suas obras de destaque são a casa Armando Piasandi (1937), a casa Eugênio Hausen (1937), que foi um dos fundadores das Forjas Tauros S.A., em 1939,  e a casa Arno Jacobi (1937).

Robert Wihan (1896-1935) se graduou pela Deutsche Techniche Hochschule, de Praga, no ano de 1920. O arquiteto checo trabalhou em Porto Alegre a partir do final da década de 1920 em parceria com Julius Lohweg. Entre suas obras se destacam sua própria residência e a de seu irmão, Johann, em 1930. Robert casou-se com Brigitte Bantel e faleceu precocemente em 1935, com apenas 39 anos. Mesmo assim, Robert Wihan se insere de forma importante no início da arquitetura modernista em Porto Alegre. Vários de seus projetos tem um caráter inaugural. Segundo  Rogério de Oliveira:

Em Porto Alegre, os primeiros exemplos de modernidade arquitetônica se destacaram a partir da residência do arquiteto Robert Wihan, projetada por ele em parceria com o arquiteto Julius Lohweg, no ano de 1930, no Bairro Cristal, e também através da casa de Johann Wihan, projetada pelo arquiteto, no mesmo ano e na mesma rua.
Ambas as casas apresentam uma variação de planos e uma plasticidade que mesclam formas lineares e aerodinâmicas. Sua arquitetura dissolve a massa sólida inspirando-se nas formas da vanguarda expressionista, decorrente da formação de Wihan na Deutsche Techniche Hochschule. (In: OLIVEIRA, R.P.D. de, SAUL MACCHIAVELLO & ANTONIO RUBIO MODERNIDADE ARQUITETÔNICA EM PORTO ALEGRE (1928-1938). 2010. p. 54.

Existem os projetos de duas casas na mesma Av. Gravataí, no Bairro Cristal, que seriam as residências dos irmãos Wihan, embora não exista nenhuma comprovação de que foram realmente construidas. Ambas são residências parecidas e estão entre os primeiros projetos modernistas na cidade. Segundo Oliveira, “Destaca-se a resolução da cobertura plana, excluindo o telhado, símbolo da arquitetura tradicional. As janelas de canto conferem uma tentativa de aproximar-se, técnica e formalmente, das janelas horizontais em banda de Le Corbusier.”

Primeiramente, em 1930, o arquiteto Julius Lohweg constrói  a Casa Robert Wihan. O projeto não é assinado, mas é atribuído ao próprio Robert. Segundo o prof. Weimer, é o primeiro registro documentado de prédio dentro da linguagem modernista em Porto Alegre (AMPOA, p. 89).

Casa Johann Wihan

Casa Robert Wihan. Fonte: WEIMER, G. Arquitetura Modernista de Porto Alegre, p. 89. 1998.

De outubro de 1930 é também o projeto da Residência Johann Wihan, sendo construída pela firma Dyckerhoff & Wiedmann (WEIMER, 1998), a empresa que veio para construir o Viaduto Otávio Rocha e que trouxe os dois irmãos. O projeto é também atribuído a Robert Wihan, pelo prof. Gunter, segundo o qual, a residência se utiliza da total racionalização formal e trabalha com arestas arredondadas, o que viria a ser quase que um padrão nas primeiras casas modernas.

Casa Johann Wihan

Casa Johann Wihan. Fonte: WEIMER, G. Arquitetura Modernista de Porto Alegre, p. 90. 1998.

Segundo Oliveira, “Essas residências de vertente expressionista apresentaram outro tipo de modernidade, visto que a curva e o movimento se constituem como os elementos compositivos preponderantes, diferentemente das obras …. [que] baseavam-se em linhas geométricas de um Art Déco predominantemente retilíneo”.

Temos entre 1930 e 1937 vários casos de projetos assinados pelo engenheiro construtor Johann Wihan e nenhum pelo arquiteto Robert Wihan. Os dois irmãos eram sócios da mesma empresa e enquanto Johann se encarregava da administração da empresa, segundo o prof. Günter, Robert seria o verdadeiro autor dos projetos arquitetônicos.

A razão de Robert não assinar os projetos foi que logo depois da regulamentação profissional, decorrente da constituição de 1933, os arquitetos perderam os registros expedidos com o qualificativo “arquiteto”. Somente alguns poucos profissionais conseguiram o registro como “engenheiro”, por questões burocráticas, e entre eles Johann Wihan e Josep Lutzemberger, casualmente os nomes registrados nos projetos da Casa de Apartamentos e dos dois edifícios de Bastian Pinto (Casa de Aluguel, hoje “Vila Flores”), nas esquinas das ruas São Carlos e Hoffmann. Robert não tinha registro para assinar projetos e por esta razão, Johann os assinava.

Em 1937, Johann Wihan assina como engenheiro construtor o projeto da casa modernista de Frederico Machemer, na rua Marques do Pombal, 1167, considerada pelo prof. Gunter Weimer, em Arquitetura Moderna em Porto Alegre, uma obra de relevância nacional para o modernismo. O projeto não é assinado, mas provavelmente era também de Robert Wihan, segundo o prof. Weimer.

Residencia Machemer, de Robert Wihan.

Fonte: WEIMER, G. Arquitetura Modernista de Porto Alegre, p. 76. 1998.

De 1937  é também o projeto da Residência Armando Piampodi, na Av. dos Minuanos. O projeto foi assinado por Johann Wihan, mas era provavelmente novamente  de seu irmão Robert. Como em outros casos, talvez o prédio nunca tenha sido construído.

É neste quadro geral de projetos realizados por Robert Wihan, mas assinados por seu irmão Johann, que devemos compreender a planta da Casa de Apartamentos, atualmente em venda, construída para Jorge Thofehrn. O projeto que foi regularizado junto a prefeitura em 1937 é assinado por Johann Wihan, conforme as plantas abaixo, pertencentes ao acervo do Arquivo Municipal (clique para ampliar).

Casa de Apartamentos, Robert Wihan

Fonte: Arquivo Municipal | Clique para ampliar.

Casa de Apartamentos, de Robert Wihan.

A Casa em 2014.

Casa de Apartamentos, Robert Wihan

Fonte: Arquivo Municipal | Clique para ampliar.

Mas, na verdade, a casa já estava construída antes de 1934, pois parte de seu telhado aparece em uma famosa foto do dirigível alemão Graf Zeppelin, quando sobrevoava Porto Alegre, no final de junho de 1934, causando sensação entre o público.

zeppelin1934

A foto foi tirada por Jacob Prudencio Herrmann, do alto da fábrica Jorge Thofehrn Cia. Ltda., que ficava em frente a Casa de Apartamentos.

Na verdade, foram tiradas duas fotos durante a passagem do dirigível, que integramos nesta montagem, abaixo.

Clique para ampliar.

Segundo a planta da casa no arquivo municipal, a construção esteve a cargo de  Franz Gschwenter, construtor licenciado, que assinou como Francisco Gschwenter,  e que tinha estreitas relações com Jorge Thofehrn.  Gschwenter nasceu em 1893 na cidade de Ijuí, e obteve licença para edificações de até dois pavimentos. Por volta de 1930 construiu diversas residências e armazéns nos bairros São Geraldo e Navegantes, onde assinava com o nome de Francisco (WEIMER, 2004, op. cit. p. 80). Gschwenter não só construia, mas também projetava. De 1930 é o registro de um bangalô, construído para ser sua residência, na Av. Germânia, atual Av. Cairú. Na mesma época, Gschwenter  havia comprado a casa de veraneio de Jorge Thofehrn no bairro Três Figueiras e pagou a metade do valor construindo uma casa para ele na Coronel Bordini. Em 1937, Gschwenter  foi o responsável por uma reforma da Fábrica Thofehrn, que ficava em frente a Casa de Apartamentos.

Na casa, depois da passagem do Graff Zeppelin  foi criado no local do armazém da esquina o Bar Zeppelin, de Johannes Passberg, um bar de alemães, muito conhecido nos anos 30, ponto de encontro dos pilotos da Varig, e que fazia parte de uma série de bares alemães importantes na cidade, como o Chalé da Praça XV, o Gambrinus, no Mercado Público, sendo o único fora do Centro.

João Passberg foi dono depois do bar Gauchinha, no Centro, e do Restaurante João, na rua Arabutã, transversal da avenida Farrapos, no bairro Navegantes. Seu filho, Friederich Johann Passberg foi pioneiro em serviços de cattering, tinha uma empresa que fornecia a comida de bordo dos aviões da Panair,  Cruzeiro do Sul, depois comprada pela Varig.
Nos anos 30 foi criado também um Bar Zeppelin, em Recife, cidade que era ponto de atracamento do Zeppelin entre a Europa e o Rio de Janeiro.

O Bar Zeppelin foi também alvo dos ataques a estabelecimentos com nomes germânicos em 1942 e talvez tenha sido esta a razão de seu fechamento, levando Passberg a abrir o Restaurante João, no bairro Navegantes.

Na foto de Herrmann acima também se vê boa parte do prédio na R. São Carlos, projetado por J. Lutzenberger, para Bastian Pinto, em 1928. Embora o projeto da Casa de Apartamentos tenha sido assinado por João Wihan, em 1937, regularizando sua situação junto a Prefeitura, provavelmente foi projetado por Robert Wihan e construído em algum momento entre 1930 e 1934, antes de sua morte em 1935.

O projeto não é modernista, como alguns anteriores de Robert dos anos 30, com curvas, pois apresenta as “linhas geométricas de um Art Déco predominantemente retilíneo” e mantém o telhado tradicional, provavelmente por não ser uma residência unifamiliar e ser direcionada à locação por seu proprietário.

A última notícia que temos de Johann Wihan encontramos no Diário de Notícias, de 22 de maio de 1949, onde é publicada uma lista de brasileiros e estrangeiros que obtiveram das autoridades de ocupação licença de saída da Alemanha, entre eles, Roberto, Johann e Alice Wihan. Alice poderia ser ou a esposa ou uma filha de Johann Wihan. Roberto Wihan era o filho de Johann, que havia dado a ele o nome aportuguesado do irmão Robert. Roberto Wihan fez curso de engenharia em Porto Alegre e assumiu a direção da empresa com a morte do pai, provavelmente nos anos 80.

Após a morte de Jorge Thofehrn , a casa passou  a ser de sua viúva, Bertha, e quando esta morreu,  passou à propriedade de sua filha Hedwig Thofehrn Herrmann. Por falecimento desta, o imóvel passou a seus filhos Vera, Bruno e Curt. Permaneceu em condomínio dos irmãos, até ser vendida em dezembro de 2010.

Agradecemos a Marion e Curt Thofehrn, netos de Jorge Thofehrn, e aos arquitetos Günter Weimer e Lucas Volpato pela ajuda no levantamento dessas informações. Agradecemos também a Johann Passberg (neto) e Maria Eunice Albrecht (nora), da família de Johann Passberg.

 A forma arquitetônica Casa de Apartamentos

A Casa de Apartamentos, que Robert Wihan projetou, corresponde a uma nova forma de morar, cuja origem é explicada por Silvia Chacon, em seu estudo sobre edificações multifamiliares no Rio de Janeiro,  a partir dos anos 30:

Com a virada do século XX e a reforma urbana que se implantou na cidade [do Rio de Janeiro], a indústria da construção civil emergente recebeu um impulso notável. A necessidade premente de moradia, as novas técnicas e materiais de construção e a crescente valorização dos lotes urbanos, principalmente aqueles próximos ao centro da cidade, impulsionavam ao maior aproveitamento do lote, fazendo com que o setor imobiliário buscasse maior valorização da terra urbana, levando à solução de multiplicar a ocupação do lote, através de pavimentos superpostos – a “casa de apartamentos” [ou “pequeno edifício”].

Representava um modelo a ser desenvolvido e reproduzido por toda a cidade. Modelo que os incorporadores buscavam cada vez mais valorizar, desvinculando-o de sua condição de habitação coletiva e aproximando-o das vantagens das casas isoladas, com o atrativo de aliar gabarito elevado à ascendência social do proprietário. Apesar dos primeiros discursos sobre a “casa de apartamentos” ter surgido na esteira de uma promessa de solução para a crise de habitação, com possibilidade de moradia para muitos, tal promessa não se concretizou, pelo menos, no princípio. No fim da década de 1930, a tipologia canônica da edificação residencial multifamiliar foi enfim definida, integrada à estrutura da quadra colonial portuguesa.

Podemos definir a edificação multifamiliar como um conjunto de unidades residenciais privadas, dotadas de compartimentos habitáveis (sala e/ou quarto), um compartimento destinado ao cozimento dos alimentos (cozinha) e um compartimento destinado à higiene pessoal (banheiro), interligadas por uma circulação comum horizontal, que caracteriza um pavimento. Os pavimentos se interligam por, obrigatoriamente, uma circulação vertical (escadas, certamente, e elevadores, possivelmente), podendo apresentar serviços coletivos nos pavimentos e nos acessos.

A “casa de apartamentos” representou uma transição para o edifício de apartamentos, porque continha características específicas, com unidades habitacionais de tamanho e número de compartimentos diversos e com unidades habitacionais incompletas, até sem cozinha.
In: CHACON, S. Um Estudo Tipológico das Transformações das Edificações Multifamiliares no Rio de Janeiro, entre 1930 e 2000: O Caso do Bairro de Botafogo. 2004.

Edificação Residencial Multifamiliar: Aquela destinada ao uso residencial multifamiliar; o conjunto de duas ou mais unidades residenciais em uma só edificação, compreendendo cada unidade, pelo menos dois compartimentos, um dos quais sendo para instalação sanitária. É chamado também de Casa de Apartamentos ou Edifício de Apartamentos.

Conclusão

A Casa de Apartamentos, não só por seu preço e dimensão, é um imóvel bastante interessante, mas também por ser a única construção sobrevivente ligada à história de um importante industrial de Porto Alegre, e por ser um dos poucos registros da passagem por Porto Alegre dos irmãos Wihan.

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