Precursores da Inovação Social (I): Quakers

Começa aqui uma série sobre precursores da inovação social. Usamos “inovação social” em um sentido muito mais amplo, o que inclui grandes reformadores sociais e mesmo revolucionários. A inovação disruptiva em tecnologia é um tema mais recente, embora a máquina a vapor e a eletricidade fossem em sua época exatamente isso. Mas nem toda inovação se restringe à esfera tecnológica, propostas concretas de mudanças sociais e, mais importante, experiências sociais reais, que implicam novas formas de convívio e de desenvolvimento econômico, são tentativas de transformar o mundo criando algo novo, que de alguma forma é uma ruptura com o passado e abre possibilidades futuras. Eram verdadeiros “designers sociais”, criando e desenhando novas organizações sociais, que teriam a função de resolver sérios problemas do seu próprio tempo.
Essa série recolhe algumas experiências passadas, precursoras de experiências contemporâneas.
UrbsNova trabalha exatamente no desenvolvimento de organizações através do design social inovador.
– Jorge Piqué, fundador de UrbsNova Porto Alegre – Barcelona | Agência de Design Social

Normalmente temos uma ideia muito simplificada, quando não preconceituosa, do Movimento Quaker (existe o termo português quacre, mas usarei sempre o termo original inglês). Eles erroneamente são confundidos com outras tradições dentro do movimento da Reforma, como anabatistas, menonitas, amishes  ou puritanos.

Anabatistas são a  “ala radical” da Reforma Protestante. Fundaram sua primeira igreja em 1525, foram perseguidos e massacrados por católicos e protestantes, como hereges. Praticavam apenas o batismo em idade adulta e postulavam a separação total entre Igreja e Estado Sobreviveram apenas os anabatistas pacifistas, como os Menonitas. De uma cisão dos menonitas surgiram os amishes, conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

Amishes em Indiana, EUA.

Amishes em Indiana, EUA.

Os puritanos vem diretamente do Calvinismo, introduzido na Inglaterra no séc. XVIII. Negavam tanto a igreja católica como a anglicana e os anabatistas. Eram um grupo tipicamente conservador, queriam um reforma mais radical que os demais grupos. Perseguidos, emigraram a partir de 1630 para os Estados Unidos, conhecidos lá como “Peregrinos”.

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Puritanos. The First Thanksgiviving at Plymouth (1914), de Jennie Augusta Brownscombe.

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George Fox

Já os quakers vêm de uma tradição completamente diferente, nada conservadora, altamente flexível, assumindo por isso formas as mais diferentes. Como surgiram os quakers? Simplesmente um grupo dentro da Igreja Anglicana criado em 1652, pelo inglês George Fox, que pretendeu ser a restauração da fé cristã original. Se autodenominam Sociedade dos Amigos, sendo o termo quaker (“tremedor”, como em earthquaker, “terremoto”) um apelido depreciativo que seus opositores usaram, mas que hoje eles mesmos incorporaram, considerando como sinônimo de “amigo”.

Quando surgiram, seus princípios eram bem avançados para a época. Defendiam o pacifismo e a liberdade individual. Portanto, eram totalmente contra a escravidão e vários quakers foram importantes abolicionistas. Também não admitiam diferenças de gênero, as mulheres tem todos os direitos dos homens e muitas das primeiras feministas americanas foram quakers. Foram também os primeiros nos EUA a condenar o emprego da pena capital ou mesmo a punição por abuso físico. Não valorizam templos, não tem atividades missionárias, nem pagam dízimos. Não condenam os pecadores nem lhes ditam regras, apenas dão conselhos, quando solicitados. Os quakers atuais não se vestem mais com as suas roupas tradicionais. Desde os anos 70 algumas comunidades quaker aceitam o casamento de mesmo sexo.

Não admitiam nenhuma hierarquia clerical, o indivíduo teria seu encontro pessoal direto com a divindade. Mas admitiam reuniões informais, com o mínimo de organização e principalmente encontros completamente silenciosos, meditativos.

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Circulo de amigos, da comunidade quaker de Toronto, se reunindo em uma biblioteca, para contemplação.

Aspiram a uma vida de recolhimento, simplicidade e pureza ética. Defendem a liberdade política e religiosa de todos, tanto que se aproximam e dialogam com outras religiões, inclusive com o paganismo greco-romano. A atitude quaker é de que a divindade é uma possibilidade, por isso se aproximam muito de algumas crenças não-religiosas, como o budismo. Desde 1930 existem comunidades de quakers ateus (nontheists).

Mas, desde a origem, uma característica quaker, paralela a contemplação coletiva silenciosa, é um forte ativismo social, diferentemente do budismo, mais passivo. No caso deste post, o que nos interessa é que a  filosofia quaker tem um papel muito grande na inovação social, propondo novas formas de convívio, no séc. XVII e XVIII, que anteciparam em parte importantes movimentos reformistas e revolucionários do séc. XIX, que ainda marcam a nossa época.

J-Frame of Government of PaOs quakers foram também hostilizados na Inglaterra e por isso migraram para a América, onde, em 1681, sob a liderança de William Penn (o famoso quaker na Aveia Quaker), fundaram a colônia da Pennsylvania, que tomou o nome do próprio Penn, e a cidade de Philadelphia (“Amor Fraternal”). A nova colônia foi fundada sobre princípios democráticos, redatados no Frame of Government of Pennsylvania,  que, mais de 100 anos depois, influenciou a primeira constituição americana de 1787.

Segundo Karl Polaniy, os quakers foram “pioneiros na exploração das possibilidades da existência moderna”, foram os primeiros modernos reformadores de políticas sociais, ou seja, o que nós poderíamos chamar de inovadores sociais. O próprio Polaniy, quando emigrou de Viena para a Inglaterra, no início dos anos 30, esteve em estreito contato com grupos quakers. Foram os primeiros também a desenvolver ajudas sociais aos mais pobres, inicialmente entre eles, mas depois a qualquer pobre, mesmo não sendo um quaker, já que defendiam a igualdade social.  O quaker Lawson, em 1660, foi pioneiro em propor a criação de uma Labor Exchange, ou seja, o que modernamente seria uma agência pública de empregos, ajudando assim os pobres desempregados que queriam trabalhar. A proposta, no entanto, foi rejeitada pelo parlamento britânico e nunca implementada.

Um grande inovador social quaker, muito pouco conhecido, foi John Bellers (1654-1725), que viu com muita antecedência, ainda no séc. XVII, 100 anos, portanto, antes das revoluções americana e francesa, ideais sociais que só se desenvolveriam plenamente nos séculos XIX e XX, como cooperativismo, saúde pública, um Estado europeu unificado, pacifismo, sindicalismo, socialismo, comunismo e anarquismo.  Bellers  foi um grande humanitarista e pensador radical. Viveu em uma época muito conservadora e foi um dos primeiros a perceber a massiva desigualdade gerada por uma nascente industrialização. E por isso foi justamente reconhecido pelo pensamento socialista posterior. Robert Owen (1771 – 1858) , o criador do socialismo utópico, o considerava um precursor dos seus próprios experimentos cooperativos socialistas, como também, Charles Fourier (1772 – 1837), o filósofo socialista, outro precursor do cooperativismo. O próprio Karl Marx (1818 — 1883) o considerava a veritable phenomenon in the history of political economy (O Capital, p. 619).

Em 1696, Bellers foi além da ideia de uma agencia de empregos e propôs os “Colleges of Industry”, Colônias Cooperativas de Trabalho, onde os pobres trocariam diretamente entre si o trabalho, sem a interferência de uma moeda de troca e de intermediários. Lembremos que nesta época não havia, além da mera caridade, nenhuma forma de proteção social aos pobres vinda do Estado, nem sindicados, nem previdência social, ou saúde pública.

A ideia central de Bellers era de que o trabalho é o principal valor, conceito que está na base do pensamento marxista. Nos College of Industry, uma espécie de cooperativa auto-gerida, teríamos uma corporação de todos os tipos de profissões, que trabalhariam umas pelas outras, sem qualquer assistência pública. Nota-se que aqui não se trata de responsabilizar o Estado pela solução dos problemas sociais, como outras correntes defenderiam, mas de propor formas de organização independente do Estado para encontrar as soluções, ideias que muito mais tarde grupos anarquistas irão defender. Cada participante contribuiria segundo suas habilidades e receberia segundo suas necessidades. Era o principio da autossuficiência da classe trabalhadora, que o comunismo posterior tornaria a sua própria utopia.

Essa cooperativa teria no mínimo 300 pessoas, 200 delas profissionais, que viveriam coletivamente, junto com suas famílias. Haveria  regras e disciplina, mas não haveria punições físicas, como era comum na época. As atividades seriam de agricultura e manufatura. Não se tratava de uma corporação isolada da economia mais ampla. Produtos e serviços excedentes poderia ser vendidos para fora e o dinheiro seria usado em melhoramentos para todos. Era uma solução específica para os pobres, cuja grave situação não era atendida nem pela caridade dos ricos nem pelos impostos públicos, mas que devia ser apoiada pelos ricos, e ele tentava convencê-los que a melhoria das condições do pobres lhes seria indiretamente benéfica, uma ideia pouco comum na época, mas que acabou vingando em fases mais recentes do capitalismo.

Eram verdadeiras “corporações de pobres”. Para participar de forma política na criação das regras internas, era necessário que o indivíduo tivesse uma contribuição inicial em dinheiro, mas quem não dispusesse desse valor mínimo poderia participar trabalhando e usufruindo do beneficio de uma vida coletiva. Neste sentido, parecia-se a futura cooperativa, já que quem investia esperava ter lucros também. Mas uma cooperativa atual é diferente no sentido em que não há vida em comum e todos tem a mesma atividade, além disso, a relação econômica se dá exclusivamente com um mercado externo. Seria uma grande corporação operária que praticaria a vida em comum, cuidando da saúde e desenvolvendo o conhecimento e o trabalho como valores humanos coletivos.

O College providenciaria também educação para os filhos dos pobres. Essa educação consistia na aquisição de conhecimentos, mas em trabalho também. O trabalho era visto como um valor, uma criança desde cedo pode trabalhar e transformar esse trabalho em fonte de conhecimento e saúde. Exatamente o oposto do trabalho brutal que crianças entre 6 e 12 eram obrigadas a realizar no início da industrialização. Caso uma criança ficasse órfã, ela continuaria sendo educada e cuidada pelo coletivo, preservada da miséria, que era então o destino certo de uma criança sem o âmbito de proteção familiar.

A medida que as pessoas fossem envelhecendo, uma hora de trabalho seria retirada da jornada diária. Quando chegassem aos 60 anos, poderiam ser supervisores do trabalho dos demais, ou seja, aproximadamente, entre os 50 e 52 começaria a diminuição gradual da jornada de trabalho.

As posições radicais de Bellers se contrapunham ao movimento Quietista, mais contemplador que ativista, que predominou entre os quakers da Inglaterra nos dois séculos seguintes. Mas teve uma grande influência em autores socialistas, anarquistas e comunistas posteriores.

Influencias sobre o socialismo:
Roberto Owen em 1819 desenvolveu os Villages of Union
Charles Fourier: plano Phalansthère

Influencias sobre o anarquismo:
Proudhon propunha o Bank of Exchange, primeira exploração prática do anarquismo filosófico

Influencias sobre o marxismo:
Para Marx era o Estado que devia promover essa proteção dos pobres e desamparados, dentro de uma sociedade igualitária, governado pela ditadura do proletariado.

Governos da Europa Ocidental, após a II Grande Guerra Mundial, chegaram próximos da visão de Bellers, com o surgimento de Estados de Bem-Estar Social (“Welfare state“), a partir do modelo  desenvolvido na Suécia.

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Jorge Piqué

UrbsNova – Agência de Design Social

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