Arquivo mensal: julho 2015

Precursores da Inovação Social (I): Quakers

Começa aqui uma série sobre precursores da inovação social. Usamos “inovação social” em um sentido muito mais amplo, o que inclui grandes reformadores sociais e mesmo revolucionários. A inovação disruptiva em tecnologia é um tema mais recente, embora a máquina a vapor e a eletricidade fossem em sua época exatamente isso. Mas nem toda inovação se restringe à esfera tecnológica, propostas concretas de mudanças sociais e, mais importante, experiências sociais reais, que implicam novas formas de convívio e de desenvolvimento econômico, são tentativas de transformar o mundo criando algo novo, que de alguma forma é uma ruptura com o passado e abre possibilidades futuras. Eram verdadeiros “designers sociais”, criando e desenhando novas organizações sociais, que teriam a função de resolver sérios problemas do seu próprio tempo.
Essa série recolhe algumas experiências passadas, precursoras de experiências contemporâneas.
UrbsNova trabalha exatamente no desenvolvimento de organizações através do design social inovador.
– Jorge Piqué, fundador de UrbsNova Porto Alegre – Barcelona | Agência de Design Social

Normalmente temos uma ideia muito simplificada, quando não preconceituosa, do Movimento Quaker (existe o termo português quacre, mas usarei sempre o termo original inglês). Eles erroneamente são confundidos com outras tradições dentro do movimento da Reforma, como anabatistas, menonitas, amishes  ou puritanos.

Anabatistas são a  “ala radical” da Reforma Protestante. Fundaram sua primeira igreja em 1525, foram perseguidos e massacrados por católicos e protestantes, como hereges. Praticavam apenas o batismo em idade adulta e postulavam a separação total entre Igreja e Estado Sobreviveram apenas os anabatistas pacifistas, como os Menonitas. De uma cisão dos menonitas surgiram os amishes, conhecidos por seus costumes conservadores, como o uso restrito de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones e automóveis.

Amishes em Indiana, EUA.

Amishes em Indiana, EUA.

Os puritanos vem diretamente do Calvinismo, introduzido na Inglaterra no séc. XVIII. Negavam tanto a igreja católica como a anglicana e os anabatistas. Eram um grupo tipicamente conservador, queriam um reforma mais radical que os demais grupos. Perseguidos, emigraram a partir de 1630 para os Estados Unidos, conhecidos lá como “Peregrinos”.

Purititnasfirst-thanksgiving-2

Puritanos. The First Thanksgiviving at Plymouth (1914), de Jennie Augusta Brownscombe.

George_Fox

George Fox

Já os quakers vêm de uma tradição completamente diferente, nada conservadora, altamente flexível, assumindo por isso formas as mais diferentes. Como surgiram os quakers? Simplesmente um grupo dentro da Igreja Anglicana criado em 1652, pelo inglês George Fox, que pretendeu ser a restauração da fé cristã original. Se autodenominam Sociedade dos Amigos, sendo o termo quaker (“tremedor”, como em earthquaker, “terremoto”) um apelido depreciativo que seus opositores usaram, mas que hoje eles mesmos incorporaram, considerando como sinônimo de “amigo”.

Quando surgiram, seus princípios eram bem avançados para a época. Defendiam o pacifismo e a liberdade individual. Portanto, eram totalmente contra a escravidão e vários quakers foram importantes abolicionistas. Também não admitiam diferenças de gênero, as mulheres tem todos os direitos dos homens e muitas das primeiras feministas americanas foram quakers. Foram também os primeiros nos EUA a condenar o emprego da pena capital ou mesmo a punição por abuso físico. Não valorizam templos, não tem atividades missionárias, nem pagam dízimos. Não condenam os pecadores nem lhes ditam regras, apenas dão conselhos, quando solicitados. Os quakers atuais não se vestem mais com as suas roupas tradicionais. Desde os anos 70 algumas comunidades quaker aceitam o casamento de mesmo sexo.

Não admitiam nenhuma hierarquia clerical, o indivíduo teria seu encontro pessoal direto com a divindade. Mas admitiam reuniões informais, com o mínimo de organização e principalmente encontros completamente silenciosos, meditativos.

37f5d-quaker1_crop

Circulo de amigos, da comunidade quaker de Toronto, se reunindo em uma biblioteca, para contemplação.

Aspiram a uma vida de recolhimento, simplicidade e pureza ética. Defendem a liberdade política e religiosa de todos, tanto que se aproximam e dialogam com outras religiões, inclusive com o paganismo greco-romano. A atitude quaker é de que a divindade é uma possibilidade, por isso se aproximam muito de algumas crenças não-religiosas, como o budismo. Desde 1930 existem comunidades de quakers ateus (nontheists).

Mas, desde a origem, uma característica quaker, paralela a contemplação coletiva silenciosa, é um forte ativismo social, diferentemente do budismo, mais passivo. No caso deste post, o que nos interessa é que a  filosofia quaker tem um papel muito grande na inovação social, propondo novas formas de convívio, no séc. XVII e XVIII, que anteciparam em parte importantes movimentos reformistas e revolucionários do séc. XIX, que ainda marcam a nossa época.

J-Frame of Government of PaOs quakers foram também hostilizados na Inglaterra e por isso migraram para a América, onde, em 1681, sob a liderança de William Penn (o famoso quaker na Aveia Quaker), fundaram a colônia da Pennsylvania, que tomou o nome do próprio Penn, e a cidade de Philadelphia (“Amor Fraternal”). A nova colônia foi fundada sobre princípios democráticos, redatados no Frame of Government of Pennsylvania,  que, mais de 100 anos depois, influenciou a primeira constituição americana de 1787.

Segundo Karl Polaniy, os quakers foram “pioneiros na exploração das possibilidades da existência moderna”, foram os primeiros modernos reformadores de políticas sociais, ou seja, o que nós poderíamos chamar de inovadores sociais. O próprio Polaniy, quando emigrou de Viena para a Inglaterra, no início dos anos 30, esteve em estreito contato com grupos quakers. Foram os primeiros também a desenvolver ajudas sociais aos mais pobres, inicialmente entre eles, mas depois a qualquer pobre, mesmo não sendo um quaker, já que defendiam a igualdade social.  O quaker Lawson, em 1660, foi pioneiro em propor a criação de uma Labor Exchange, ou seja, o que modernamente seria uma agência pública de empregos, ajudando assim os pobres desempregados que queriam trabalhar. A proposta, no entanto, foi rejeitada pelo parlamento britânico e nunca implementada.

Um grande inovador social quaker, muito pouco conhecido, foi John Bellers (1654-1725), que viu com muita antecedência, ainda no séc. XVII, 100 anos, portanto, antes das revoluções americana e francesa, ideais sociais que só se desenvolveriam plenamente nos séculos XIX e XX, como cooperativismo, saúde pública, um Estado europeu unificado, pacifismo, sindicalismo, socialismo, comunismo e anarquismo.  Bellers  foi um grande humanitarista e pensador radical. Viveu em uma época muito conservadora e foi um dos primeiros a perceber a massiva desigualdade gerada por uma nascente industrialização. E por isso foi justamente reconhecido pelo pensamento socialista posterior. Robert Owen (1771 – 1858) , o criador do socialismo utópico, o considerava um precursor dos seus próprios experimentos cooperativos socialistas, como também, Charles Fourier (1772 – 1837), o filósofo socialista, outro precursor do cooperativismo. O próprio Karl Marx (1818 — 1883) o considerava a veritable phenomenon in the history of political economy (O Capital, p. 619).

Em 1696, Bellers foi além da ideia de uma agencia de empregos e propôs os “Colleges of Industry”, Colônias Cooperativas de Trabalho, onde os pobres trocariam diretamente entre si o trabalho, sem a interferência de uma moeda de troca e de intermediários. Lembremos que nesta época não havia, além da mera caridade, nenhuma forma de proteção social aos pobres vinda do Estado, nem sindicados, nem previdência social, ou saúde pública.

A ideia central de Bellers era de que o trabalho é o principal valor, conceito que está na base do pensamento marxista. Nos College of Industry, uma espécie de cooperativa auto-gerida, teríamos uma corporação de todos os tipos de profissões, que trabalhariam umas pelas outras, sem qualquer assistência pública. Nota-se que aqui não se trata de responsabilizar o Estado pela solução dos problemas sociais, como outras correntes defenderiam, mas de propor formas de organização independente do Estado para encontrar as soluções, ideias que muito mais tarde grupos anarquistas irão defender. Cada participante contribuiria segundo suas habilidades e receberia segundo suas necessidades. Era o principio da autossuficiência da classe trabalhadora, que o comunismo posterior tornaria a sua própria utopia.

Essa cooperativa teria no mínimo 300 pessoas, 200 delas profissionais, que viveriam coletivamente, junto com suas famílias. Haveria  regras e disciplina, mas não haveria punições físicas, como era comum na época. As atividades seriam de agricultura e manufatura. Não se tratava de uma corporação isolada da economia mais ampla. Produtos e serviços excedentes poderia ser vendidos para fora e o dinheiro seria usado em melhoramentos para todos. Era uma solução específica para os pobres, cuja grave situação não era atendida nem pela caridade dos ricos nem pelos impostos públicos, mas que devia ser apoiada pelos ricos, e ele tentava convencê-los que a melhoria das condições do pobres lhes seria indiretamente benéfica, uma ideia pouco comum na época, mas que acabou vingando em fases mais recentes do capitalismo.

Eram verdadeiras “corporações de pobres”. Para participar de forma política na criação das regras internas, era necessário que o indivíduo tivesse uma contribuição inicial em dinheiro, mas quem não dispusesse desse valor mínimo poderia participar trabalhando e usufruindo do beneficio de uma vida coletiva. Neste sentido, parecia-se a futura cooperativa, já que quem investia esperava ter lucros também. Mas uma cooperativa atual é diferente no sentido em que não há vida em comum e todos tem a mesma atividade, além disso, a relação econômica se dá exclusivamente com um mercado externo. Seria uma grande corporação operária que praticaria a vida em comum, cuidando da saúde e desenvolvendo o conhecimento e o trabalho como valores humanos coletivos.

O College providenciaria também educação para os filhos dos pobres. Essa educação consistia na aquisição de conhecimentos, mas em trabalho também. O trabalho era visto como um valor, uma criança desde cedo pode trabalhar e transformar esse trabalho em fonte de conhecimento e saúde. Exatamente o oposto do trabalho brutal que crianças entre 6 e 12 eram obrigadas a realizar no início da industrialização. Caso uma criança ficasse órfã, ela continuaria sendo educada e cuidada pelo coletivo, preservada da miséria, que era então o destino certo de uma criança sem o âmbito de proteção familiar.

A medida que as pessoas fossem envelhecendo, uma hora de trabalho seria retirada da jornada diária. Quando chegassem aos 60 anos, poderiam ser supervisores do trabalho dos demais, ou seja, aproximadamente, entre os 50 e 52 começaria a diminuição gradual da jornada de trabalho.

As posições radicais de Bellers se contrapunham ao movimento Quietista, mais contemplador que ativista, que predominou entre os quakers da Inglaterra nos dois séculos seguintes. Mas teve uma grande influência em autores socialistas, anarquistas e comunistas posteriores.

Influencias sobre o socialismo:
Roberto Owen em 1819 desenvolveu os Villages of Union
Charles Fourier: plano Phalansthère

Influencias sobre o anarquismo:
Proudhon propunha o Bank of Exchange, primeira exploração prática do anarquismo filosófico

Influencias sobre o marxismo:
Para Marx era o Estado que devia promover essa proteção dos pobres e desamparados, dentro de uma sociedade igualitária, governado pela ditadura do proletariado.

Governos da Europa Ocidental, após a II Grande Guerra Mundial, chegaram próximos da visão de Bellers, com o surgimento de Estados de Bem-Estar Social (“Welfare state“), a partir do modelo  desenvolvido na Suécia.

fotoartigo
Jorge Piqué

UrbsNova – Agência de Design Social

Fotos SESC Turismo no Distrito C (07 de jul de 2015)

topoteste1Parceria entre SESC Turismo e UrbsNova promove a visita de comerciários do interior do Estado para conhecer o Distrito Criativo de Porto Alegre. Conhece a iniciativa.

Apresentamos abaixo as fotos da primeira visita do SESC ao Distrito C, que aconteceu no dia 7 de julho de 2015

Ofício Criativo (Farmácia Belladona)
recebidos por Margret Spohr

1 2 2b 5 6 20150707_141453 20150707_141520 20150707_141650 20150707_141813Caminhando pela rua Félix da Cunha, para a Igreja São Pedro.

20150707_142729Igreja São Pedro, de j. Hruby

20150707_143520 20150707_143741 20150707_143756 20150707_143857 20150707_143915 20150707_144233

Studio Insonia
recebidos por Victor Hugo Farias Nievas.

20150707_145221 20150707_145307  20150707_145314 20150707_145330 20150707_145409 20150707_145528 20150707_145546 20150707_145645 20150707_145715 20150707_145750 20150707_145838 20150707_145901

Caminhando pela r. Visconde de Rio Branco, para a Galeria Bolsa de Arte.

20150707_150115

Grafite de Victor Hugo Farias Nievas, do Studio Insonia

20150707_150509Galeria Bolsa de Arte
recebidos por Bernardo Kroeff

20150707_150653 20150707_150940 20150707_150947 20150707_151005 20150707_151032 20150707_151036 20150707_151103 20150707_151111 20150707_151141 20150707_151846 20150707_151149 20150707_151838  20150707_15191220150707_151859  20150707_152302 20150707_152351 20150707_152405 20150707_152410 20150707_152538 20150707_152819

Caminhando pela r. Visconde de Rio Branco, em direção a La Casa de Bernarda Alba.

20150707_153020Antiquário La Casa de Bernarda Alba
recebidos por Carmen Isabel Andreola20150707_154255

20150707_153206  20150707_153221

20150707_153231

20150707_153257 20150707_153329
20150707_15341420150707_153551      20150707_15355420150707_153612     20150707_15363320150707_15363820150707_153807     20150707_15371320150707_15392320150707_153928    20150707_154021

Caminhando pela rua Conde de Porto Alegre, fundos da empresa Gerdau, em direção à Padaria Dalmás.

20150707_154522    20150707_154902 20150707_154921

Padaria e Confeitaria Dalmás
recebidos por Gisele Dalmás.

20150707_160135
20150707_155303 20150707_155255 20150707_155430

Saída do ônibus para a segunda parte da visita ao Distrito C

20150707_161420

Atelier Wolkmer
recebidos por Clóvis Wolkmer.

20150707_16172620150707_161646 20150707_161624 20150707_161651 20150707_161631   20150707_16202420150707_16203620150707_162320  20150707_162132 20150707_162202

Casa 533
recebidos por Mônica Fachin.

20150707_162905 20150707_163047 20150707_163116 20150707_16313720150707_163134  20150707_163142 20150707_163244 20150707_163247 20150707_163317 20150707_163340 20150707_163419

Naida Gomes Artes e Antiguidades
recebidos por Naida Gomes.

20150707_16422020150707_164117 20150707_164127  20150707_164501 20150707_164607    20150707_164611 20150707_164626 20150707_164647 20150707_164937  20150707_16505320150707_164429

Pela rua Câncio Gomes, em direção à Loja Garimpo.

20150707_165309

Garimpo Móveis & objetos de arte
recebidos por Elizabeth Schmidt.

20150707_16540820150707_170411

20150707_170418 20150707_165632
20150707_165702
  20150707_165622        20150707_165651  20150707_17025620150707_165733

20150707_16584520150707_165746 20150707_165914

Caminhando pela rua Sete de Abril  em direção ao Vila Flores (antigo Moinho Germani, ao fundo)

20150707_171131

Vila Flores

20150707_171848

Brechó Vuelta al Mundo
recebidos por Luana de Brito.

20150707_17235420150707_17232420150707_17233420150707_172538     20150707_17254920150707_172556  20150707_17264120150707_172721

Caixa do Elefante
recebidos por Mario de Ballentti e Viviana Kreitchmann.

20150707_17354820150707_173535  20150707_17353020150707_17361320150707_17372320150707_174038 20150707_17404620150707_17410920150707_17414420150707_17423120150707_17423720150707_17424420150707_17425820150707_174423  20150707_17443520150707_175426

Ato Espelhado Companhia Teatral
recebidos por Cícero Neves e Pati Ragazzon.
(para entrar no espaço era necessário tirar os sapatos)

20150707_174712 20150707_174800 20150707_174859 20150707_174810  20150707_174812