Ed. Bastian Pinto, de Joseph Lutzenberger

Recentemente, criamos uma página sobre os prédios de Joseph Lutzenberger (1882 — 1951), famoso arquiteto, professor e artista, no bairro Floresta, na esquina da R. São Carlos com Hoffmann: Vila Flores: Acupuntura Urbana no Quarto Distrito

Ao contar a história desses prédios, apontamos que o mesmo proprietário, Eng. Oscar Bastian Pinto, após o trabalho com Lutzenberger neste projeto, havia encomendado ao mesmo arquiteto, no Centro, o Ed. Bastian Pinto, na esquina das ruas Vigário José Ignacio e Andradas, em 1928-30.

Fernando Corona, importante arquiteto de Porto Alegre, e colega de Lutzenberger, incluía este edifício entre as 4 melhores obras de Lutzenberger:

“São da autoria do arquiteto Lutzenberger o Palácio do Comércio, a Igreja de São José … o Orfanato do Pão dos Pobres, o Edifício Bastian da Capital e do Interior do Estado.” – Fernando Corona, 1969
Fonte: http://www.lutzenberger.com.br/texto_02_.htm

O Edifício Bastian Pinto foi retratado numa aquarela pelo próprio Lutzenberger, provavelmente nos anos 40. A comparação entre a aquarela e o estado atual do prédio, postada no facebook, nos levaram a muitas reflexões e a um aprofundamento sobre o próprio edifício.

Na imagem abaixo, à direita, vemos qual é a situação atual desse edifício, que preferimos nem olhar mais, não o percebemos como parte da paisagem urbana.

Ed. Bastian Pinto

Ed. Bastian Pinto | Foto: Jorge Piqué

Notem a descaracterização da parte térrea da fachada por anúncios, se perdeu a elegância dos arcos, que os toldos imitam grotescamente.

Ed. Bastian Pinto, fachada

Ed. Bastian Pinto, fachada | Foto: Jorge Piqué

Veja a situação do prédio em setembro de 2011, no Street View (Google Maps):
http://goo.gl/maps/vWkKd

No Código de Posturas de Porto Alegre, de 1975, ainda em vigor, já não se admitia essa desfiguração, que vemos em muitos outros casos:

Art. 38 – É proibida a colocação de anúncios:
           III – que desfigurem, de qualquer forma, as linhas arquitetônicas dos edifícios;

Estamos num momento em que se pensa em um novo código de posturas, que será um código de convivência. O cuidado com a nossa cidade não pode mais ser desrespeitado, sem nenhuma consequência, semnehuma sanção.

No período de Carnaval, se hospedava neste edifícico, conforme notícia do jornal A Federação, de 2 de fevereiro de 1931, nada mesmo que o Rei Momo, na época, chamado Deus Momo. A reportagem antes menciona a organização de um grande corso pelas ruas do centro.

carnaval ed bastian 1

O próprio Lutzenberger tem aquarelas famosas que retratam o ambiente de carnaval no centro da cidade, e que nos mostram como seriam as festividades em torno do Ed. Bastian Pinto.

Fotos da parte interna do prédio

Após apresentar essa comparação das fachadas, passada e atual, visitamos o prédio e descobrimos alguns tesouros escondidos.

Segundo o livro Rua da Praia, um passeio no tempo, de Rafael Guimarães (Ed. Libretos, p. 157):

O projeto original, aprovado em 1928, dispõe que os dois primeiros pisos que se destinariam ao comércio — lojas e um restaurante —, o terceiro abrigaria salas comerciais ou consultórios, do quarto ao sétimo haveria quatro apartamentos residenciais por andar, e no último, um único apartamento de luxo para o proprietário [Oscar Bastian Pinto]. Já no ano seguinte, o projeto sofre consideráveis modificações, tanto na fachada como na disposição interna. O terceiro andar é, dessa vez, destinado a três grandes escritórios; os três andares subsequentes são divididos num número variável de apartamentos, dentre os quais há dois, de dimensões mínimas, de quarto e sala.

Atualmente o edifício apresenta lojas no térreo, que como vimos descaracterizaram completamente um dos elementos da fachada, os arcos. Internamente os andares são divididos em várias salas comerciais, de todo o tipo. O último andar, que era provavelmente o apartamento do proprietário, recentemente foi ocupado pela Associação de Cegos do Rio Grande do Sul.

No entanto o edifício ainda apresenta no seu interior elementos importantes do seu passado, como os vitrais e a escadaria.

Encontramos na entrada do prédio, na rua Vigário José Ignácio, sobre a porta um vitral com a figura de um gaúcho, obra da Casa Genta, uma das duas grandes casas de vitrais em Porto Alegre. Provavelmente desenho do próprio Lutzenberger, já que são de sua auotira os vitrais da Igreja São José, projeto seu de alguns anos antes. Do lado de fora, o vitral é pouco visível para os pedestres da R. Vigário José Ignácio.

Ed. Bastian Pinto, entrada

Ed. Bastian Pinto, entrada | Foto: Jorge Piqué

Ed. Bastian Pinto, vitral do Gaúcho (Casa Genta)

Ed. Bastian Pinto, vitral do Gaúcho (Casa Genta) | Foto: Jorge Piqué

O vitral tem a sua melhor visão desde a parte interna do prédio:

Ed. Bastian Pinto

Foto: Jorge Piqué

Ed. Bastian Pinto

Foto: Jorge Piqué

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Vital do Gaúcho (detalhe) | Foto: Jorge Piqué

Esse vitral está identificado como sendo da Casa Genta:

“A Casa Genta foi, sem dúvida, o ateliê de maior representatividade e sua presença marcou mais de uma geração no ramo vidreiro e na memória coletiva Rio-grandense. A sua história começou com Antônio Genta, descendente de italianos, nascido em 1879, em Montevidéu. O pai de Antônio, Giuseppe Genta, transmitiu a ele e a seu irmão, Miguel Genta, os ensinamentos da arte do vidro trazida de Gênova e Altari (cidade natal de Giuseppe), Itália. Em 1908, em uma pequena oficina, Antônio começou a sua produção com vidros e a ele juntaram-se renomados artistas, dedicados à criação de cartões, desenhos e pintura de vitrais, dando origem ao ateliê Casa Genta. Foram membros da equipe o pintor alemão Maximilian Dobmeier, nascido em Munique, no período de 1930 a 1950, e o espanhol Francisco Huguet, no período de 1940 a 1980. Na produção dos vitrais era, comumente, usado o vidro densamente coloridos de origem europeia, assim como as grisalhas.”
Fonte: http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/vitral_pelotas.htm

A entrada conduz à escadaria, que parece ser a original:

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Foto: Jorge Piqué

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Foto: Jorge Piqué

Por último, quase imperceptível na fachada, encontramos outro vitral.

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Foto: Jorge Piqué

Mesmo ampliando a imagem, não se distingue claramente o tema.

Vitral do Menino

Foto: Jorge Piqué

Mas a face interna não se encontra em uma área pública do prédio, como no caso do gaúcho, mas sim em uma das salas comerciais, mais específicamente em um estudio fotográfico.

Entramos na sala comercial e no estúdio fotográfico, e atrás de uma grossa cortina encontramos esse belo vitral da Casa Veit e Filho, que possivelmente seria também um desenho de Lutzenberger.

Clique na imagem para ampliar

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Foto: Jorge Piqué

A Casa Veit, juntamente com a Casa Genta, foram as duas principais casas desse tipo em Porto Alegre:

Durante o século XX, no sul do Brasil, no estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre, dois ateliês destacaram-se, nacional e internacionalmente, na produção de vitrais, a Casa Genta e a Casa Veit. (…) A Casa Veit iniciou a sua produção com Albert Goodfried Veit, imigrante alemão, nascido em 1865, em Wüttenberg, na Bavária. Albert imigrou para o Brasil em 1913 e, após um breve estadia no interior do estado do Rio Grande do Sul, em 1915, abriu o seu próprio estabelecimento, a Vitraux e Arte Veit. Após o seu falecimento, em 22 de janeiro de 1934, os filhos Albert Josef Georg e Hans e o neto Albert Veit Hoepf deram continuidade ao seu trabalho até o ano de 1970, quando veio a falecer Hans Veit. Registros encontrados mostram diferentes assinaturas para a produção do ateliê, tais como Veit e Filho, H. Veit, Hans Veit, Vitraux Hans, ou mesmo, Veit /Artes Reunidas. Na produção dos vitrais era abundante o uso de vidros opalinos e opalescentes, bem como esmaltes. Como uma característica especial desta produção, muitas vezes, quando na fachada, os vidros eram colocados de modo a promover uma leitura invertida do vitral, sendo os elementos escritos virados para o exterior da edificação.
Fonte: http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/vitral_pelotas.htm

Portanto, mesmo com as modificações na fachada e na parte interna, o edifício mantém algumas características especiais, que poderiam ser aproveitadas e valorizadas em um restauração e integração ao entorno, qualificando o Centro Histórico.

Quem foi Joseph Lutzenberger, o arquiteto

autoretratolutzLutzenberger] Formou-se engenheiro-arquiteto em 1906, pela Universidade Técnica Real da Baviera, em Munique, mas desde cedo interessou-se pela pintura e pelo desenho. Antes de emigrar trabalhou como arquiteto nas cidades de Rixford (1908), Dresden (1909) e Wiesbaden (1912-1913), e estudou arte com os professores Polivka (1910), em Praga, e Reinhardt e Sessenguth (1911), em Berlim (…) Tendo chegado a Porto Alegre, foi trabalhar para a construtora Weis & Cia e projetou prédios importantes, tais como a Igreja São José (1924), o Instituto Pão dos Pobres (1925) e o Palácio do Comércio (1940). (fonte: Wikipedia).

Quem foi Oscar Bastian Pinto, o proprietário

O proprietário, Oscar Bastian Pinto (n. 1881), foi engenheiro formado pela Escola de Engenharia, onde foi colega de Manoel Itaqui. Era filiado ao positivismo, corrente político-filosófica que prevaleceu no Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do sèc XX. Desde 1899 era cunhado de Pedro Chaves Barcelos e depois de seu irmão Antonio e sempre foi muito vinculado a esta familia (No final do séc. XIX Alzira Bastian, que nasceu em Porto Alegre, era prima de Marieta Chaves Barcellos casada com o Comendador Chaves Barcellos). Entre 1912 e 1918, residiu em Pelotas, visitando a capital com regularidade. Em 1925 foi membro da comissão auxiliadora da construção do Orfanatrofio Santo Antonio do Pão dos Pobres, um projeto de Lutzenberger, como vimos (talvez teria sido essa a oportunidade para se conhecerem). Em 1926 foi da diretoria da Companhia Sul Brasil de Seguros. Em 1928 estava também na Companhia União de Seguros e era diretor do Banco Porto Alegrense. Em 1929 era presidente da Associação de Proprietários de Imóveis (em 1939 essa associação teve participação no Plano Diretor da cidade).

Oscar Bastian Pinto foi fundador em 1931 da Sociedade Porto-Alegrese de Auxilio aos Necessitados, SPAAN. Alguns anos depois participou na criação de uma entidade que financiava a casa própria sem juros. Foi uma figura de atuação nas letras gaúchas também. Foi tradutor de Júlio Cesar em Prosa, de Shakespeare, em 1946. Foi responsável pelas notas, juntamente com Augusto Meyer, da edição de 1957 do poema Antônio Chimango, escrito pelo médico, jornalista e político Ramiro Barcellos, que satirizava a figura do poderoso Governador de Estado, Borges de Medeiros, Tinha interesses em lingûística, em 1958 foi publicado seu livro Reflexões Acerca da Expansão da Lingua Portuguesa no Mundo.

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8 ideias sobre “Ed. Bastian Pinto, de Joseph Lutzenberger

  1. Paulo Albuquerque

    Este lindo prédio poderia se tornar um hotel ou mesmo dar lugar a um empreendimento de valor cultural e histórico para a cidade. Nem quero imaginar o que ele abriga nos dias de hoje.

    Resposta
  2. Luiza Fabiana Neitzke De Carvalho

    Que reportagem instrutiva. Ajudou muito minhas pesquisas, estou estudando o jazigo dos pais de Oscar Bastian Pinto. Obrigada!!

    Resposta
  3. Claudia Schumann

    Tenho fotos dos vitrais da Igreja São Jose.
    Vitrais feitos por Albert Goofried Veit (arte final, em papelão para ser recortado o vidro), Leopold Albert Höpf (montagem do mosaico),Albert Joseph Georg Veit (montagem do mosaico) e Joseph Veigel (pintor de vitrais e afresco).

    http://artestirpe.blogspot.com.br/2013/01/igreja-sao-jose-porto-alegre-rs.html

    Desenho dos projetos dos vitrais feito por
    professor e arquiteto José Franz Seraph Lutzenberger
    http://www.lutzenberger.com.br/biografia.htm

    Aquarela
    http://www.lutzenberger.com.br/arquitetura09.htm
    http://www.lutzenberger.com.br/arquitetura08.htm
    http://www.lutzenberger.com.br/arquitetura07.htm

    Resposta

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