Arquivo mensal: março 2013

Ed. Bastian Pinto, de Joseph Lutzenberger

Recentemente, criamos uma página sobre os prédios de Joseph Lutzenberger (1882 — 1951), famoso arquiteto, professor e artista, no bairro Floresta, na esquina da R. São Carlos com Hoffmann: Vila Flores: Acupuntura Urbana no Quarto Distrito

Ao contar a história desses prédios, apontamos que o mesmo proprietário, Eng. Oscar Bastian Pinto, após o trabalho com Lutzenberger neste projeto, havia encomendado ao mesmo arquiteto, no Centro, o Ed. Bastian Pinto, na esquina das ruas Vigário José Ignacio e Andradas, em 1928-30.

Fernando Corona, importante arquiteto de Porto Alegre, e colega de Lutzenberger, incluía este edifício entre as 4 melhores obras de Lutzenberger:

“São da autoria do arquiteto Lutzenberger o Palácio do Comércio, a Igreja de São José … o Orfanato do Pão dos Pobres, o Edifício Bastian da Capital e do Interior do Estado.” – Fernando Corona, 1969
Fonte: http://www.lutzenberger.com.br/texto_02_.htm

O Edifício Bastian Pinto foi retratado numa aquarela pelo próprio Lutzenberger, provavelmente nos anos 40. A comparação entre a aquarela e o estado atual do prédio, postada no facebook, nos levaram a muitas reflexões e a um aprofundamento sobre o próprio edifício.

Na imagem abaixo, à direita, vemos qual é a situação atual desse edifício, que preferimos nem olhar mais, não o percebemos como parte da paisagem urbana.

Ed. Bastian Pinto

Ed. Bastian Pinto | Foto: Jorge Piqué

Notem a descaracterização da parte térrea da fachada por anúncios, se perdeu a elegância dos arcos, que os toldos imitam grotescamente.

Ed. Bastian Pinto, fachada

Ed. Bastian Pinto, fachada | Foto: Jorge Piqué

Veja a situação do prédio em setembro de 2011, no Street View (Google Maps):
http://goo.gl/maps/vWkKd

No Código de Posturas de Porto Alegre, de 1975, ainda em vigor, já não se admitia essa desfiguração, que vemos em muitos outros casos:

Art. 38 – É proibida a colocação de anúncios:
           III – que desfigurem, de qualquer forma, as linhas arquitetônicas dos edifícios;

Estamos num momento em que se pensa em um novo código de posturas, que será um código de convivência. O cuidado com a nossa cidade não pode mais ser desrespeitado, sem nenhuma consequência, semnehuma sanção.

No período de Carnaval, se hospedava neste edifícico, conforme notícia do jornal A Federação, de 2 de fevereiro de 1931, nada mesmo que o Rei Momo, na época, chamado Deus Momo. A reportagem antes menciona a organização de um grande corso pelas ruas do centro.

carnaval ed bastian 1

O próprio Lutzenberger tem aquarelas famosas que retratam o ambiente de carnaval no centro da cidade, e que nos mostram como seriam as festividades em torno do Ed. Bastian Pinto.

Fotos da parte interna do prédio

Após apresentar essa comparação das fachadas, passada e atual, visitamos o prédio e descobrimos alguns tesouros escondidos.

Segundo o livro Rua da Praia, um passeio no tempo, de Rafael Guimarães (Ed. Libretos, p. 157):

O projeto original, aprovado em 1928, dispõe que os dois primeiros pisos que se destinariam ao comércio — lojas e um restaurante —, o terceiro abrigaria salas comerciais ou consultórios, do quarto ao sétimo haveria quatro apartamentos residenciais por andar, e no último, um único apartamento de luxo para o proprietário [Oscar Bastian Pinto]. Já no ano seguinte, o projeto sofre consideráveis modificações, tanto na fachada como na disposição interna. O terceiro andar é, dessa vez, destinado a três grandes escritórios; os três andares subsequentes são divididos num número variável de apartamentos, dentre os quais há dois, de dimensões mínimas, de quarto e sala.

Atualmente o edifício apresenta lojas no térreo, que como vimos descaracterizaram completamente um dos elementos da fachada, os arcos. Internamente os andares são divididos em várias salas comerciais, de todo o tipo. O último andar, que era provavelmente o apartamento do proprietário, recentemente foi ocupado pela Associação de Cegos do Rio Grande do Sul.

No entanto o edifício ainda apresenta no seu interior elementos importantes do seu passado, como os vitrais e a escadaria.

Encontramos na entrada do prédio, na rua Vigário José Ignácio, sobre a porta um vitral com a figura de um gaúcho, obra da Casa Genta, uma das duas grandes casas de vitrais em Porto Alegre. Provavelmente desenho do próprio Lutzenberger, já que são de sua auotira os vitrais da Igreja São José, projeto seu de alguns anos antes. Do lado de fora, o vitral é pouco visível para os pedestres da R. Vigário José Ignácio.

Ed. Bastian Pinto, entrada

Ed. Bastian Pinto, entrada | Foto: Jorge Piqué

Ed. Bastian Pinto, vitral do Gaúcho (Casa Genta)

Ed. Bastian Pinto, vitral do Gaúcho (Casa Genta) | Foto: Jorge Piqué

O vitral tem a sua melhor visão desde a parte interna do prédio:

Ed. Bastian Pinto

Foto: Jorge Piqué

Ed. Bastian Pinto

Foto: Jorge Piqué

gaucho

Vital do Gaúcho (detalhe) | Foto: Jorge Piqué

Esse vitral está identificado como sendo da Casa Genta:

“A Casa Genta foi, sem dúvida, o ateliê de maior representatividade e sua presença marcou mais de uma geração no ramo vidreiro e na memória coletiva Rio-grandense. A sua história começou com Antônio Genta, descendente de italianos, nascido em 1879, em Montevidéu. O pai de Antônio, Giuseppe Genta, transmitiu a ele e a seu irmão, Miguel Genta, os ensinamentos da arte do vidro trazida de Gênova e Altari (cidade natal de Giuseppe), Itália. Em 1908, em uma pequena oficina, Antônio começou a sua produção com vidros e a ele juntaram-se renomados artistas, dedicados à criação de cartões, desenhos e pintura de vitrais, dando origem ao ateliê Casa Genta. Foram membros da equipe o pintor alemão Maximilian Dobmeier, nascido em Munique, no período de 1930 a 1950, e o espanhol Francisco Huguet, no período de 1940 a 1980. Na produção dos vitrais era, comumente, usado o vidro densamente coloridos de origem europeia, assim como as grisalhas.”
Fonte: http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/vitral_pelotas.htm

A entrada conduz à escadaria, que parece ser a original:

2013-03-26_14-02-09_1

Foto: Jorge Piqué

2013-03-26_14-01-27_150

Foto: Jorge Piqué

Por último, quase imperceptível na fachada, encontramos outro vitral.

2013-03-26_14-08-35_88

Foto: Jorge Piqué

Mesmo ampliando a imagem, não se distingue claramente o tema.

Vitral do Menino

Foto: Jorge Piqué

Mas a face interna não se encontra em uma área pública do prédio, como no caso do gaúcho, mas sim em uma das salas comerciais, mais específicamente em um estudio fotográfico.

Entramos na sala comercial e no estúdio fotográfico, e atrás de uma grossa cortina encontramos esse belo vitral da Casa Veit e Filho, que possivelmente seria também um desenho de Lutzenberger.

Clique na imagem para ampliar

2013-03-26_14-07-17_915

Foto: Jorge Piqué

A Casa Veit, juntamente com a Casa Genta, foram as duas principais casas desse tipo em Porto Alegre:

Durante o século XX, no sul do Brasil, no estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre, dois ateliês destacaram-se, nacional e internacionalmente, na produção de vitrais, a Casa Genta e a Casa Veit. (…) A Casa Veit iniciou a sua produção com Albert Goodfried Veit, imigrante alemão, nascido em 1865, em Wüttenberg, na Bavária. Albert imigrou para o Brasil em 1913 e, após um breve estadia no interior do estado do Rio Grande do Sul, em 1915, abriu o seu próprio estabelecimento, a Vitraux e Arte Veit. Após o seu falecimento, em 22 de janeiro de 1934, os filhos Albert Josef Georg e Hans e o neto Albert Veit Hoepf deram continuidade ao seu trabalho até o ano de 1970, quando veio a falecer Hans Veit. Registros encontrados mostram diferentes assinaturas para a produção do ateliê, tais como Veit e Filho, H. Veit, Hans Veit, Vitraux Hans, ou mesmo, Veit /Artes Reunidas. Na produção dos vitrais era abundante o uso de vidros opalinos e opalescentes, bem como esmaltes. Como uma característica especial desta produção, muitas vezes, quando na fachada, os vidros eram colocados de modo a promover uma leitura invertida do vitral, sendo os elementos escritos virados para o exterior da edificação.
Fonte: http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/vitral_pelotas.htm

Portanto, mesmo com as modificações na fachada e na parte interna, o edifício mantém algumas características especiais, que poderiam ser aproveitadas e valorizadas em um restauração e integração ao entorno, qualificando o Centro Histórico.

Quem foi Joseph Lutzenberger, o arquiteto

autoretratolutzLutzenberger] Formou-se engenheiro-arquiteto em 1906, pela Universidade Técnica Real da Baviera, em Munique, mas desde cedo interessou-se pela pintura e pelo desenho. Antes de emigrar trabalhou como arquiteto nas cidades de Rixford (1908), Dresden (1909) e Wiesbaden (1912-1913), e estudou arte com os professores Polivka (1910), em Praga, e Reinhardt e Sessenguth (1911), em Berlim (…) Tendo chegado a Porto Alegre, foi trabalhar para a construtora Weis & Cia e projetou prédios importantes, tais como a Igreja São José (1924), o Instituto Pão dos Pobres (1925) e o Palácio do Comércio (1940). (fonte: Wikipedia).

Quem foi Oscar Bastian Pinto, o proprietário

O proprietário, Oscar Bastian Pinto (n. 1881), foi engenheiro formado pela Escola de Engenharia, onde foi colega de Manoel Itaqui. Era filiado ao positivismo, corrente político-filosófica que prevaleceu no Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do sèc XX. Desde 1899 era cunhado de Pedro Chaves Barcelos e depois de seu irmão Antonio e sempre foi muito vinculado a esta familia (No final do séc. XIX Alzira Bastian, que nasceu em Porto Alegre, era prima de Marieta Chaves Barcellos casada com o Comendador Chaves Barcellos). Entre 1912 e 1918, residiu em Pelotas, visitando a capital com regularidade. Em 1925 foi membro da comissão auxiliadora da construção do Orfanatrofio Santo Antonio do Pão dos Pobres, um projeto de Lutzenberger, como vimos (talvez teria sido essa a oportunidade para se conhecerem). Em 1926 foi da diretoria da Companhia Sul Brasil de Seguros. Em 1928 estava também na Companhia União de Seguros e era diretor do Banco Porto Alegrense. Em 1929 era presidente da Associação de Proprietários de Imóveis (em 1939 essa associação teve participação no Plano Diretor da cidade).

Oscar Bastian Pinto foi fundador em 1931 da Sociedade Porto-Alegrese de Auxilio aos Necessitados, SPAAN. Alguns anos depois participou na criação de uma entidade que financiava a casa própria sem juros. Foi uma figura de atuação nas letras gaúchas também. Foi tradutor de Júlio Cesar em Prosa, de Shakespeare, em 1946. Foi responsável pelas notas, juntamente com Augusto Meyer, da edição de 1957 do poema Antônio Chimango, escrito pelo médico, jornalista e político Ramiro Barcellos, que satirizava a figura do poderoso Governador de Estado, Borges de Medeiros, Tinha interesses em lingûística, em 1958 foi publicado seu livro Reflexões Acerca da Expansão da Lingua Portuguesa no Mundo.

Encruzilhadas Urbanas, por Carol Bensimon

ZERO-HORA 23 de março de 2013 | N° 17380

Caderno Cultura Encruzilhadas Urbanas, por Carol Bensimon

14786844

Foto: Júlio Cordeiro

Cidade presente
Construções do isolamento contemporâneo

Todo dia, um prédio recebe o acabamento final em Porto Alegre, e então está pronto para ser ocupado. Ele tem 15 ou 18 andares, janelas estreitas, uma área de lazer que nunca será tão movimentada quanto foi nas projeções eletrônicas, um nome de realeza britânica, um nome de praia espanhola, um nome em francês que pouca gente será capaz de pronunciar da forma correta.

O Prédio Novo – vamos chamá-lo assim, para simplificar as coisas – é dotado de um projeto paisagístico “minimalista”, o que se traduz, em termos práticos e visíveis, por alguns tufos de vegetação acompanhando o traçado das grades, além das esquálidas promessas de palmeiras dispostas diante da entrada. O Prédio Novo provavelmente tirou o sol da manhã que caía sobre o pátio de uma velha senhora, essa senhora, aliás, que se recusou a vender seu “terreno” (o qual, por hábito, ela chama de “casa”), obrigando a uma mudança sutil de planos por parte da incorporadora. O Prédio Novo, antes mesmo de estar pronto, tornou-se um sucesso comercial.

Tentei fazer um retrato de um empreendimento que acaba de nascer porque quero discutir alguns pontos relacionados a estética, escala de valores, alguma psicologia, e sobretudo àquilo que devemos esperar de nossas casas e de nossa cidade.
Em uma obra clássica do urbanismo, Morte e Vida de Grandes Cidades, Jane Jacobs descreve-nos um bairro histórico de Chicago e o empenho de seus moradores em restaurá-lo, o que fez com que, segundo Jacobs, aquele se tornasse um dos lugares mais interessantes, diversos e vivos de Chicago. Em contraste, eis o que a autora nos diz sobre outra cidade americana: “Em Miami Beach, onde a novidade é o remédio soberano, hotéis com 10 anos de idade são considerados ultrapassados, e ignorados porque há outros mais novos. A novidade, com seu superficial verniz de bem-estar, é uma mercadoria muito perecível”. Agora substitua “Miami Beach” por “cidades brasileiras” e veja que a frase continua fazendo sentido, mesmo que tenha sido escrita 52 anos atrás.

Brasil e Estados Unidos, é claro, têm muito em comum. Portanto não me impressiona – ou ao menos não tanto quanto me incomoda – o fato de que a maioria de nós, brasileiros, queira adquirir um imóvel recém construído ou ainda na planta, ainda que essa característica vista como benefício se evapore em um prazo tão curto. Em um país emergente e de pouca idade como o nosso, é compreensível que o atributo do “novo” siga ditando a norma, na maior parte das vezes às custas da extinção do que é “velho”. Uma casa dos anos 1960, cheia de personalidade, subitamente dá lugar a um espigão. Você já viu esse filme várias vezes, inclusive acontecendo na sua rua.

O aspecto mutante das cidades brasileiras – alguém compararia Porto Alegre ou Recife a um palimpsesto muito gasto – é resultado de um importante crescimento econômico, sem dúvida. Mas esse crescimento se dá de forma tão desordenada que acaba por criar uma sensação de desconforto, instabilidade e, por que não, de constante insegurança. Não se trata somente de já não encontrar os lugares da infância quando você fica um pouco mais velho, tendo daí a impressão de que um pedaço de sua história foi carregada e descartada pelo vaivém de uma retroescavadeira; trata-se de observar, impotente, uma cidade hostil crescendo diante dos seus olhos. E uma fração considerável dessa hostilidade, ouso dizer, nasce com os novos empreendimentos.
Vou embasar minha afirmação em três pontos. O primeiro deles está relacionado à altura dos prédios. Quanto mais alto um edifício, menor é sua ligação com a rua. Em outras palavras: se você está no 14º andar, vai olhar muito pouco ou rigorosamente nunca para o que acontece na calçada defronte ao seu prédio. Você terá uma magnífica visão do todo, é claro, e pode ganhar até mesmo uma fatia de Guaíba lá no fundo, mas os detalhes, as pessoas, estão fora do seu alcance. Em um andar mais baixo, por outro lado, é possível observar gente indo e vindo. Um gesto banal que, como afirma Jane Jacobs no já citado livro, contribui para a segurança dos que moram naquela quadra, e também dos que apenas passam por ela. Quanto maior o número de olhos observando, melhor. Isso me faz pensar, aliás, nas sacadas (os novos apartamentos raramente têm uma, e muitas das antigas sacadas foram fechadas pelos seus donos, como se o clima de Porto Alegre fosse tão rigoroso quanto o de Helsinki ou Bagdá). A sacada, além de oferecer um pouco de ar livre dentro do seu próprio apartamento – sei que muitos europeus matariam por isso –, ainda serve como uma bela “ponte” para a rua. Os dois lados agradecem.

Segundo ponto: alguns dos novos empreendimentos criam zonas residenciais de enormes proporções. Como consequência, seus moradores precisam do carro para qualquer deslocamento, mesmo os mais cotidianos (supermercado, farmácia, banco, etc.). As calçadas acabam se esvaziando, é claro, e aquele que por acaso usá-las será acometido por uma grande sensação de insegurança.

Por último, torres residenciais de 18 andares não contribuem para a paisagem da cidade simplesmente porque são feias. Beleza é um conceito muito subjetivo e pessoal, sem dúvida. Ainda assim, diante de uma foto do centro de Phoenix, Arizona, e outra de uma estreita rua romana, acredito que nove entre 10 pessoas se sentiriam mais atraídas – e talvez mesmo apaziguadas – pela segunda imagem.

Em A Arquitetura da Felicidade, o filósofo suíço Alain De Botton diz que, assim como cadeiras ou bules denotam certa personalidade de acordo com suas curvas, cores e tamanhos variados, a mesma lógica é válida para obras arquitetônicas. Nossa tendência é, em resumo, “humanizar” todas as coisas. Portanto, afirma De Botton, “sentir que uma construção é desagradável talvez seja simplesmente não gostar do temperamento da criatura ou ser humano que reconhecemos vagamente na fachada – assim como dizer que outro edifício é bonito significa sentir a presença de uma personalidade agradável se ele assumisse uma forma viva”.

Que tipo de caráter prédios mastodônticos de janelas diminutas nos transmitem? Deixo para você esse exercício de imaginação.

A Porto Alegre que completa 241 anos esta semana parece optar por ser uma Capital com cada vez mais carros, menos pedestres e menos contato humano

Questões Urbanas
Pelas ruas da cidade

Porto Alegre vai assoprar 241 velinhas nesta terça-feira, 26 de março. Eu continuo a amá-la incondicionalmente, o sol furando uma nuvem para alcançar o Guaíba, ruas tranquilas de paralelepípedos, almoço de domingo no Barranco, pinhão no inverno e dias compridos de verão. Mas é verdade que, às vezes, nós quebramos os pratos. Acontece quando minhas expectativas em relação a ela não estão exatamente afinadas com a sua transformação. Eu quero ir a lugares caminhando, mas ela joga as chaves do carro no meu colo. Ela tenta me seduzir com filmes argentinos, pães da Barbarella, um fim de tarde no Iberê, a floração das paineiras, mas não quer nem ouvir falar dos meus argumentos contra a duplicação da Beira-Rio. Um belo dia, eu elogio a arquitetura de um prédio dos anos 1950, e no outro, com uma risada meio sarcástica de filme B, ela encontra uma fresta nos recém colocados tapumes e me mostra uma montanha de entulho. Porto Alegre é assim. Então eu sento na sacada, olho para a figueira centenária que está na minha frente, e respiro fundo.

Há um consenso de que o trânsito em Porto Alegre está cada dia mais complicado. É fácil perceber o fenômeno: nós falamos sobre o assunto em jantares, registramos engarrafamentos no instagram, reclamamos no twitter da falta de táxis, enviamos sms para amigos dizendo o quão atrasados nós estamos por conta de uma tranqueira na Independência. Diante de tal cenário, surge a “iluminada” solução: o alargamento das vias. Para culminar, somos uma das cidades-sede da Copa de 2014, e não queremos fazer feio diante dos olhos do Primeiro Mundo.

Ora, a maioria desses mesmos países diante dos quais nós não queremos “fazer feio” já entendeu há alguns anos que investir na duplicação de ruas, em viadutos e trincheiras não resolve os problemas de mobilidade, comuns a todos os grandes centros urbanos. Não há truque, mágica ou retórica desonesta nessa conclusão; a duplicação de ruas e avenidas cria o que alguns especialistas chamam de demanda induzida. Isso quer dizer que, se a malha viária de uma cidade cresce, mais pessoas vão querer dirigir, e as que já dirigem provavelmente serão levadas a percorrer distâncias maiores. Em muito pouco tempo, as obras, cujo objetivo era o de aliviar o trânsito, são suplantadas pelo aumento da demanda.

Em 2004, nos Estados Unidos, uma análise baseada em dezenas de estudos prévios concluiu que “em média, um aumento viário de 10% leva a um aumento imediato de 4% no número de quilômetros percorridos por um veículo, o qual sobe para 10% – toda a nova capacidade – em poucos anos”. Pesquisas semelhantes foram e estão sendo conduzidas no mundo inteiro. No já distante ano de 1998, o ministro britânico de transportes, Gavin Strang, disse: “Fato é que não podemos resolver os nossos problemas de tráfego através da construção de mais vias”. Surpreendentemente, até a Newsweek – uma revista cujo perfil é muito mais conservador do que liberal – publicou um artigo em 2009 o qual afirmava com pesar: “A demanda dos motoristas tende a superar rapidamente a nova oferta; hoje, os engenheiros reconhecem que construir novas estradas geralmente torna o tráfego pior”. Todas essas citações foram retiradas do mais recente livro do urbanista Jeff Speck, Walkable City: How Downtown Can Save America, One Step at a Time.

No ano passado, eu conheci Los Angeles. Los Angeles é provavelmente a cidade mais planejada e adaptada à supremacia do carro no mundo inteiro. Quer saber o que acontece? As avenidas engarrafam. As freeways engarrafam. E voltar a pé até o hotel, mesmo em uma zona boa como a “Miracle Mile”, faz você ter a sensação de que está prestes a ser atacado a cada esquina porque ninguém mais está fazendo isso.

Mas vamos voltar a Porto Alegre.

Eu não sinto vergonha em admitir que tenho um carro (ok, só um pouco). Talvez eu possa mesmo partir desse fato para recomendar a todos que façam um uso responsável de seus automóveis. Eu saio muito pouco com o meu carro. Tudo que é possível fazer caminhando, eu faço. Se eu percorrer mentalmente o mapa de Porto Alegre agora, eu diria que posso alcançar com minhas próprias pernas, e sem cansar muito, ao menos seis bairros da cidade. Infelizmente, nesses percursos, eu não cruzo com tantas pessoas como eu cruzaria, vamos dizer, em Paris. Isso tem relação com os hábitos arraigados a cada cidade, é claro, mas tais hábitos não surgem sem razão; caminhar ou não caminhar está diretamente ligado a questões de densidade, diversidade, e até mesmo de estética.

Porto Alegre é uma cidade muito espalhada e, a cada ano, ela se expande mais, engolfando cantos rurais e desconhecidos da Zona Sul, dos altos da Protásio Alves, dos arredores do aeroporto. Quanto mais distante do trabalho uma pessoa mora, mais quilômetros ela precisa percorrer, e portanto mais tráfego ela irá gerar. Não precisamos ser urbanistas para entendermos essa parte. Assim, uma baixa densidade (habitantes/quilômetros quadrados) costuma ser problemática porque provavelmente obriga as pessoas a se deslocarem uns bons quilômetros até o local de trabalho, os serviços, o lazer, etc. E a solução para aumentar a densidade urbana, ainda que isso possa nos enganar à primeira vista, não passa pela construção de espigões residenciais. A prova disso é que o Bom Fim, um bairro onde predominam os prédios de poucos andares, é o segundo mais denso de Porto Alegre, perdendo apenas para a Cidade Baixa. Quem conhece o Bom Fim, além disso, consegue entender o quanto uma densidade mais elevada acaba por estimular uma “vida de bairro”. E isso é algo de que todos nós, moradores de outras áreas da cidade, deveríamos sentir inveja.

Uma cidade voltada para o carro, além de não estar livre dos engarrafamentos – mas pelo contrário –, e de obrigar, por essa própria lógica, os deslocamentos excessivos, costuma ser, além de tudo, uma cidade não muito bonita de se olhar. Pense em um viaduto. Pense agora em todo o perímetro urbano que se deteriora instantaneamente quando um viaduto é construído.

Muito me surpreende, portanto, que a prefeitura esteja executando uma obra dessas quase à beira do Guaíba, na avenida Pinheiro Borda, a cerca de 600 metros da Fundação Iberê Camargo. Uma área, enfim, que não precisa de mais carros, mas de gente.

Gostaria de fazer um agradecimento especial aos porto-alegrenses donos de cachorro que levam seus cães para que façam as necessidades fora de casa. Essa gente ocupa a rua, inclusive em horários improváveis.

Não quero agradecer de forma alguma àqueles que frequentam uma academia, mas não saem a pé sequer para comprar o pão de cada dia.

Todos nós nos sentimos atraídos por cidades bonitas. É por isso que Paris, Amsterdã, Veneza, Nova York são alguns dos lugares onde gostaríamos de passar as férias. Mas “férias” é algo que acontece uma ou duas vezes por ano. No resto do tempo, permanecemos trabalhando e tentando nos divertir em nossa própria cidade. Então por que não fazer dela o lugar mais bonito possível?

Não se trata de uma questão fútil. Em A Arquitetura da Felicidade, o filósofo Alain De Botton apresenta uma ideia segundo a qual nossos múltiplos “eus” são evocados de acordo com o que está ao nosso redor. E, se às vezes parecemos distantes do que julgamos ser nosso “eu” verdadeiro, talvez seja porque o lugar onde estamos não o estimule muito. Nas palavras de De Botton: “O nosso acesso a ele [ao “eu”] é, a um grau modesto, determinado pelos lugares onde estamos, pela cor dos tijolos, a altura dos tetos e o traçado das ruas. Num quarto de hotel estrangulado por três vias expressas ou numa área devastada com prédios enormes e mal conservados, nosso otimismo e propósito tendem a se exaurir, como água num vaso furado. Começamos a esquecer que um dia tivemos ambições ou motivos para nos sentir animados e cheios de esperança”.

Um dos bairros mais queridos e valorizados de Porto Alegre é, sem dúvida, o Moinhos de Vento. Por quê? O bairro tem vida diurna e vida noturna. Bancos, consultórios, cafés, restaurantes. Mas há mais do que isso. Trata-se de uma das áreas mais esteticamente agradáveis da cidade. Essa não é apenas uma opinião pessoal. Quantas vezes você já viu o substantivo “charme” ou o adjetivo “charmoso” ser relacionado a esse lugar? Pois bem, o charme do Moinhos de Vento não vem apenas em um cappuccino caro; ele exala de seus casarões antigos, dos jardins do DMAE, da relativa harmonia visual encontrada em ruas como a Dinarte Ribeiro ou a Barão do Santo Ângelo.

Triste pensar, portanto, que, no final do ano passado, um edifício salmão de quatro andares da década de 1950, localizado no encontro da Mostardeiro com a Comendador Caminha, tenha sido demolido repentinamente, causando indignação nas redes sociais. O local agora está cheio de tapumes sem nenhuma identificação. Tenho certeza de que o futuro empreendimento, seja ele o que for, será vendido com o apoio dos atributos do bairro; prevejo o uso excessivo de termos como “beleza”, “charme”, “caráter único” e “encanto” em folders e demais peças promocionais. A ironia é que, ao demolir o pequeno prédio da Comendador Caminha, a construtora em questão esteja ajudando a acabar justamente com as características que tanto valorizam o bairro.

Quando eu estava longe de Porto Alegre, morando em outro continente, a coisa da qual eu mais sentia falta era o verde. Porto Alegre é uma cidade um bocado arborizada. Nossas ruas têm cerca de 1,3 milhão de árvores, quase uma por habitante. A elas, somam-se os bonitos jardins de muitas casas e edifícios, a vegetação ao longo da orla do Guaíba, os parques, as praças. Essa presença incansável da natureza torna as nossas vidas muito melhores ou, como diria talvez Alain De Botton, desperta o nosso “eu” mais belo, entusiasmado e cheio de esperança. Tenho certeza de que somos muitos a reconhecer esse como um dos maiores trunfos de nossa capital, e a prova disso é que nossas árvores estão muito mais protegidas, em termos legais, do que nosso patrimônio histórico. Em outras palavras, é muito mais fácil derrubar uma casa do que um ipê.

14786827

Foto: Júlio Cordeiro

Eu, particularmente, gosto até desses parasitas – ou seriam epífitas, eu não sei – cujas flores roxas e rosa aparecem e duram apenas uma questão de dias. Gosto da grama que nasce entre as pedras do calçamento, dos guapuruvus que alcançam uma altura inimaginável, de todas as árvores que florescem e eu nunca sei o nome, de raízes expostas, de calçadas deformadas, das árvores que engoliram lixeiras (há uma na minha rua) ou das que se misturaram aos muros vá saber como. E depois há os pássaros incríveis que vêm cantar perto da janela. As aves de rapina que rondam a cobertura do meu prédio. É por isso que Porto Alegre e eu, nós quebramos os pratos às vezes, mas então voltamos a nos entender. Não sei o que devo esperar, de qualquer maneira, de nossos próximos anos juntas.

CAROL BENSIMON
Escritora, autora de “Pó de Parede” e “Sinuca Embaixo d´Água”
http://www.carolbensimon.com/