Arquivo mensal: outubro 2012

UrbsNova Porto Alegre | Barcelona

A nova Praça Otávio Rocha … Visão noturna de um espaço público … (e diurna também)

Uma parte importante do tema da ocupação pela comunidade do espaço urbano público é a questão das praças e parques da cidade. Infelizmente durante décadas, embora tivéssemos belas praças e parques, parece que a população se resignou à decadência, e esses importantes lugares públicos, especialmente no Centro Histórico, foram deixados de lado, esquecidos, abandonados. Felizmente nos últimos anos, com o impulso do Projeto Monumenta, o Centro Histórico começou a dar sinais de recuperação.

Estive dia 5 de outubro de 2012 visitando a Praça Otávio Rocha a noite, poucas semanas após a restauração do local pela Prefeitura de Porto Alegre. Tirei algumas fotos que podem ser visualizadas no final desta página. Consideramos essa praça muito importante como espaço de vida comunitária.

É muito bom ver a cidade retomar esse espaço público em uma localização privilegiada no Centro Histórico. Já se pode ver que as pessoas frequentam a praça com naturalidade, seja para ler, namorar, ou apenas descansar um pouco, sentando num dos vários bancos que estão disponíveis, antes de voltar para casa.

O que chama mais a atenção é o local da futura cafeteria que vai ser instalada ali em dezembro, com belas colunas jônicas. Já está muito bem iluminada, com local para banheiros embaixo das escadas, além de acesso para cadeirantes. Não é difícil imaginar que muitos que trabalham e estudam no Centro vão aproveitar para tomar café da manhã e almoçar ali. Existem vários hotéis em volta e o próprio Instituto de Artes da UFRGS está praticamente ao lado, esperamos que os estudantes de artes ocupem aquele lugar. Mas é especialmente de noite que este lugar ganha encanto, como se pode ver já nas fotos, e com certeza muitos vão se reunir nessa cafeteria para um pouco de lazer no final do dia.

Vemos muitas possibilidades para este local, realmente todo o conjunto está muito bom. Existem pequenas falhas que devem ser ajustadas ainda, como a iluminação na entrada principal da praça, onde está o busto do prefeito Otávio Rocha (1877-1928). O busto em si está muito bem, mas podia ser melhor iluminado a noite, além disso não há ainda uma identificação no pedestal, mas são correções relativamente fáceis de executar. Nesta esquina da praça, a ponta do triângulo, que funciona como uma porta de entrada principal, deveria haver mais iluminação do próprio ambiente, para tornar convidativa a entrada.

O terraço em cima da cafeteria com uma grande luminária em forma de esfera é um excelente espaço, mas acho que ainda não se deu a melhor solução. A própria luminária estava apagada. Parece um espaço separado do belo espaço iluminado da cafeteria no piso inferior. Se houver movimento suficiente, deveria ser integrado, seria um ótimo local para colocar algumas mesas ao ar livre, além das mesas que naturalmente estarão na parte de baixo, em frente ao cafeteria.

No momento em que visitei, entre 19hs e 20 hs não havia nenhuma vigilância, particular ou guarda municipal, mas a impressão geral era de segurança. Talvez pelo fato de se ter aumentado a visibilidade do interior da praça e pelo fluxo constante de pedestres nas ruas ao lado, isso em si já aumente a segurança do local. Outra boa notícia é que não vi sinal de vandalismo, de pichações, mas se deve estar sempre alerta, embora tenha movimento durante o dia, durante a madrugada pode ficar muito vulnerável. O uso de câmaras de vigilância na Praça Otávio Rocha deveria ser umas das prioridades, como ação preventiva.

Sem dúvida, um grande passo para a revitalização do Centro Histórico. Além disso, essa praça ocupa uma posição estratégica entre a Praça XV de Novembro e a Praça Dom Feliciano. Se a Prefeitura fizer o mesmo trabalho de qualidade no restauro na Dom Feliciano, teremos uma bela sequência de praças desde a Santa Casa até a Usina do Gasômetro, com a Praça da Alfândega como um dos elos de ligação. Depois de tantos anos, esforços que pareciam separados e pontuais, sejam do Monumenta, sejam da Prefeitura, poderão finalmente convergir, melhorando em muito o nosso Centro Histórico.

Posição da Praça Otávio Rocha

Posição da Praça Otávio Rocha

É claro que ainda falta muita coisa, mas são os passos no caminho certo e necessários.

As fotos não são artísticas, não foi feita nenhuma edição digital.

Apêndice 1
Algumas semanas depois, dia 23 de outubro de 2012, voltei à praça Otávio Rocha, de dia, às 10 horas da manhã. As fotos diurnas aparecem depois das noturnas. Foi colocada uma placa de granito sob o busto de Otávio Rocha, com a inscrição HOMENAGEM DA CIDADE A OTÁVIO ROCHA, mas as letras não ficaram bem visíveis.

A Prefeitura deve restaurar em breve a Praça Dom Feliciano, como pedíamos acima, com a verba do PAC das Cidades Históricas, que foi anunciado em janeiro de 2013.

Slideshow: Praça Otávio Rocha, resgatada para a cidade, de doite e de dia.

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Apêndice 2

No dia 1º de agosto de 2013, por acaso estava passando perto da praça Otávio Rocha e vi que o café já estava funcionando com o nome de Café da Praça. Não estava oficialmente inaugurado, mas ficou muito bom, um ambiente no Centro que devemos frequentar e apoiar. Não é só com obras que se revitaliza um centro histórico, é preciso que as pessoas ocupem os lugares e garantam a sustentabilidade, é uma responsabilidade nossa também.

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Carroças em Porto Alegre… Da negação à inovação

Segundo a matéria  Cadastramento dos carroceiros,  no Correio do Povo, começou no da 20 de agosto de 2012, em Porto Alegre, “a segunda etapa do cadastramento de condutores de veículos de tração animal e de veículos de tração humana (…) De acordo com a agente de governança Vânia Gonçalves de Souza, o cadastramento é parte fundamental no processo de extinção desse tipo de serviço, que envolve carroças e carrinhos. Assim, a ideia é que esses trabalhadores migrem para outras atividades, por meio de cursos de capacitação profissional. (…) Em Porto Alegre, no ano de 2010, foi criado um programa que prevê, até 2016, a proibição de circulação de carroças e carrinhos, com base em uma legislação municipal.”

Embora, na minha opinião, por vários e conhecidos motivos, a eliminação do tráfego de carroças nas ruas seja desejável, devíamos não apenas negar e proibir essa prática, mas transformá-la em algo diferente e melhor, agregar valor ao que em princípio não tem mais valor. Um exemplo dessa atitude é a solução para o emprego de animais nos circos. Todos lamentam o tratamento que esses animais sofrem, passando horas em jaulas. Qual a reação imediata? Acabar com o circo? Ou transformá-lo? Foi o que o  Cirque Du Soleil fez, pois não usa mais animais e criou algo muito melhor que o circo tradicional, inovou em lugar de simplesmente negar e proibir, criou um caminho novo, para transitarmos de uma situação a outra, e que já foi seguido por outros grupos.

É óbvio que não pode haver mais carroças nas ruas, muito menos com animais maltratados e exaustos… Mas é verdade que esses carroceiros viveram a vida inteira assim. Desde crianças conduzem carroças pelas ruas, provavelmente com um orgulho íntimo de ter o controle sobre esses animais, eles, que tem tão pouco poder sobre qualquer coisa, tem essa habilidade especial, que é transmitida de geração para geração. Para nós, a velha carroça pode ser apenas um sinal da nossa precariedade como sociedade, um estorvo, para eles é seu bem mais precioso, parte da sua identidade.

Qual a solução, então? Simplesmente proibir e transferir os carroceiros para outras ocupações, principalmente as relacionadas com a coleta e reciclagem do lixo, mas usando veículos de tração humana? Ótimo, é uma solução também, que pode ser a mais adequada para alguns, mas será que pelo menos em alguns casos não se poderia ir além e criar algo diferente? Sair de uma simples negação e proibição de algo efetivamente errado e condenável nos dias de hoje para a sua transformação em algo positivo, inovador, no futuro?

Em várias cidades do mundo existe um serviço turístico de charretes, ou carruagens, se preferirem, que se tornaram um atrativo turístico, todos querem tirar fotografias nelas. A mais famosa está em Nova York, no Central Park, onde os cavalos são muito bem cuidados, mas existem em várias outras cidades do mundo e inclusive no Brasil, como se pode observar nas fotos abaixo.


Central Park – Nova York

Boston - EUA

Boston – EUA | Foto: Rossina Krasnoiartsev

Brugges – Bélgica
Sevilha – Espanha

Évora – Portugal

Cartagena – Colômbia

Parati – Rio de Janeiro

Essas cidades apresentam um serviço de carruagens ou charretes perfeitamente integrado, inclusive em alguns casos em via pública, convivendo com o tráfego e cuidando adequadamente dos animais. Será que Porto Alegre não teria condições de fazer algo similar, mesmo que fosse mais limitado, transformando as antigas carroças de lixo ou criando novas charretes ou carruagens de passeio, elaborando para isso uma normativa municipal adequada, sem exigir um esforço dos animais e lhes dando água e alimentação adequada?

A própria Lei nº 10531 (10 de setembro de 2008) já vislumbra esse uso alternativo das carroças, no seu artigo terceiro:

§ 1º Fica permitida a utilização de VTAs e de VTHs:
(VTA = Veículo de Tração Animal = carroças)….
IV – em locais públicos, para fins de passeios turísticos;

No Rio Grande do Sul  temos uma cultura do cavalo, mas que em Porto Alegre quase não se vê mais, com exceção dos carroceiros ou do Batalhão de Polícia Montada da Brigada Militar, no dia a dia, ou de forma excepcional nas festividades da Semana Farropilha, ou na Expointer.

Carroça de passeio para crianças – Acampamento Farropilha (2012)

Por que não convidar alguns desses carroceiros, alguns que mostrem que são educados e comunicativos, e dar a eles capacitação através de pequenos cursos e colocá-los como “operadores” dessas charretes de passeio? Afinal, eles já tem esse convívio com o animal, que é o pré-requisito  básico para a profissão. Claro que se não houver nenhum carroceiro capaz, o que pode muito bem acontecer, se poderia encontrar outras pessoas para esse serviço, que gostem de cavalos e tenha familiaridade com eles, especialmente. De qualquer modo, a cidade eliminaria as carroças do trânsito, mas  ganharia um diferencial para o público turista, e, porque não, para nós mesmos, que  faríamos esses passeios com nossos filhos.

Claro que não é algo tão simples de implementar. Em quais locais teríamos esse serviço? Dificilmente pelas ruas da cidade, embora em outras cidades se admita o uso em determinadas vias públicas. Teria que ser em áreas amplas para valer a pena o circuito e sem trânsito de veículos. Uma primeira sugestão seria o Parque da Redenção, ou também no Parque Marinha… ou ao longo da orla a partir da Usina do Gasômetro, que será em breve revitalizada… Já imaginaram um passeio de carruagem ao longo do Guaíba no entardecer? O novo projeto de revitalização da orla poderia pensar nisso desde agora. Evidentemente teria que ser um serviço bem organizado, ter fiscalização dos cavalos, por meio de veterinários,  não poderia haver sobrecarga para o animal, ou seja estabelecer um limite de ocupantes em função de haver 1, 2, ou mais animais.

Com certeza, se poderá  levantar mil probleminhas, de todo tipo. Não digo que seja simples… mas a Prefeitura não poderia pelo menos pensar na viabilidade desse serviço, enquanto avança na proibição das carroças? Caso fosse possível,  fazer uma licitação, como no caso do aluguel das bicicletas. Seria um serviço cobrado também, quem sabe aceitando propaganda, para diminuir o preço do passeio, mas propaganda muito restrita visualmente, e se poderia usar uma charretes bonitas, chamativas, mesmo que fosse para operar apenas no fim de semana. Afinal, todas as grandes e pequenas cidades no mundo que oferecem esse serviço conseguiram viabilizar esse negócio economicamente, apesar dos obstáculos. Não se trata de algo impossível, nunca tentado antes.

Em outras cidades se usam carruagens, que tem uma conotação muito aristocrática, como se pode observar em algumas fotos acima. Na minha opinião, em Porto Alegre deveriam ser charretes ou carruagens com características mais locais, mais nossas, rústicas, trazendo de volta ao ambiente urbano uma experiência da nossa própria tradição rural tão rica, e que pouco a pouco vai desaparecendo, como o carro de bois.

De preferência, buscar pelo menos inspiração em carruagens ou charretes usadas no estado, no passado, como parte de nossa memória, tão rapidamente esquecida, como esta charrete do séc. XVIII, restaurada, de propriedade de um colégio da capital, evidentemente com todas as  adaptações necessárias ao bom uso, conforto e segurança dos passageiros:

Carruagem do séc XVIII em Porto Alegre   Fonte: Restaurada, carruagem do século 18 é exposta em colégio (ZH Bela Vista)

Ou um modelo mais básico de charrete, como esta, a venda em São Paulo:


Charrete envernizada particular – São Paulo
Charrete na Padre Chagas | Foto: Rozely Froner Athayde

Charrete na Padre Chagas | Foto: Rozely Froner Athayde

Não creio que seja necessário criar esse serviço como um serviço exclusivamente turístico, sujeito às normas turísticas nacionais, e sim como um serviço em geral prestado a moradores e visitantes, como os cisnes no Parque da Redenção, com as devidas diferenças, mas sem dúvida deveria estar integrado ao sistema turístico da cidade, como o ônibus turístico. As charretes poderiam ser também um ponto de informação turística para os visitantes à cidade.

Em Parati existe inclusive a Cooperativa dos Condutores de Carruagens do Centro Histórico Paraty, desenvolvida a partir da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (UFRJ), como um serviço turístico, mas Parati é uma cidade eminentemente turística, no caso de Porto Alegre, seria mais um serviço de passeio, não  turístico, mas sim com uma dimensão turística. Em cada cidade, o serviço deve ter o conceito mais adequado para cada situação.

Proibir carroças no trânsito de Porto Alegre? Perfeito…mas por que parar apenas na proibição e deixar de criar algo novo para a cidade, que faça parte de nossa identidade?

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